Ciência cidadã e o birdwatching

Wiki Aves

Victor Barcellos

A participação do público em pesquisas científicas por meio de tecnologias digitais estão mudando o que se entende por Ciência. Novos atores passam a fazer parte do processo, novas possibilidades de investigação se abrem e a questão da legitimação dos dados encontra novos desafios. Entretanto, diversas áreas do conhecimento estão se beneficiando dessas práticas, como é o caso da ornitologia, ramo da Biologia responsável pelo estudo das aves.

O birdwatching, ou observação de aves, é uma modalidade do ecoturismo em que pessoas passeiam com o propósito de avistar aves em seu habitat natural. Essa prática tem cada vez mais contado com o uso de dispositivos móveis para registrar as observações obtidas. Esses registros ficam disponíveis da Internet em tempo real e para todo o mundo. Com isso, pesquisadores da ornitologia têm se beneficiado desses dados para seus estudos, viabilizando pesquisas que não seriam possíveis de outra maneira.

Em especial duas plataformas merecem destaque. A primeira é o eBird, de nível internacional, lançada em 2002 pelo Cornell Lab of Ornithology. Trata-se de uma rede internacional de birders que recebe, armazena e disponibiliza informações sobre aves no mundo todo submetidas por qualquer pessoa através de seu site ou aplicativo. Por ser mantida por um laboratório científico e exigir um contato institucional para o descarregamento dos dados, trata-se de uma plataforma menos aberta, ainda que apresente muitos dos princípios da ciência cidadã. Mesmo assim, seus dados têm resultado em inúmeras publicações científicas e possibilitado novas descobertas no estudo das aves.

A segunda é o Wikiaves, de nível nacional, que conta com mais de 25.000 usuários. Seu diferencial é que dispõe de um verbete wiki para cada espécie, escrito na colaboração dos usuários e reunindo as informações disponíveis de cada uma delas. Ambas permitem a visualização dos dados por região, espécie e período; e hospedam fotos, áudios e vídeos das aves avistadas. Nelas, os observadores podem conversar entre si, trocando experiências e fomentando a prática. Todas as submissões vão para a plataforma, mas os próprios usuários podem questionar a legitimidade de alguma informação enviada, e os casos de questionamento ficam em destaque para debate. Pode-se dizer que essa segunda plataforma está mais alinhada com a abertura do conhecimento na medida em que se baseia menos da gestão por especialistas no tema e mais no debate entre os próprios usuários.

Desta maneira, tem se tornado possível a obtenção de uma quantidade de dados que cientistas com técnicas analógicas jamais teriam acesso. O papel dos cientistas, com isso, passa a ser menos o de produzir dados e mais o de analisar os dados já disponíveis na rede. No caso da ornitologia, a incorporação dessas práticas já se mostra bastante avançada, rendendo muitos frutos para suas pesquisas. Resta às outras áreas seguir seu exemplo e se abrirem para as inúmeras possibilidades que a ciência cidadã em redes digitais pode oferecer.

 

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