Em que medida a Ciência Cidadã contribui para transformar a sociedade?

Por Bia Martins

As iniciativas de Ciência Cidadã contribuem para transformar a sociedade ou apenas promovem maior participação dos cidadãos na cadeia de produção de conhecimento sem abalar as estruturas vigentes?

Esta foi a questão que permeou os debates na Sessão Temática  “Producción de datos científicos dentro y fuera de los espacios e infraestructuras tradicionales del conocimiento” das XII Jornadas Latinoamericanas de Estudios Sociales de la Ciencia y la Tecnología (ESOCITE), que tiveram lugar em Santiago de Chile, de 18 a 20 de julho de 2018.

Entre os trabalhos dessa sessão, destacamos dois apresentados por pesquisadoras mexicanas: "Monitoreo ambiental comunitario en zonas periurbanas de la Ciudad de México y la Cuenca del Río Magdalena", de Viridiana González Meneses e Lucia Almeida Leñero, e “Ciencia que se respira”: infraestructuras técnicoorganizacionales y espacios políticos en torno a la investigación médica en (dis)tensión", de Julieta Piña-Romero. Eu também participei da sessão, apresentando os resultados da minha pesquisa sobre os hackerspaces brasileiros.

O debate começou quando um dos participantes argumentou que só uma mudança em grande escala seria capaz de trazer uma transformação social significativa, questionando especialmente o alcance das iniciativas de Ciência Cidadã. Desse ponto de vista, portanto, projetos que buscam o monitoramento cidadão do meio ambiente no México ou o movimento hackerspace no Brasil não teriam dimensão para representar um impacto social de peso.

No entanto, a maneira de olhar o processo de mudança social que está em curso na atualidade exige um enfoque diferente. Afinal, são inúmeras iniciativas baseadas na produção colaborativa em desenvolvimento pelo mundo todo, desde projetos de economia solidária, tão expressivos no País, passando por diversos tipos de coletivos, como hackerspaces e makerspaces, por exemplo.Temos também os laboratórios cidadãos, bastante consolidados na Espanha, e mais um sem número de projetos com diversas nomenclaturas e objetivos, que têm em comum a busca por novas formas mais distribuídas de organização e de produção, sempre com participação cidadã. É preciso encontrar novas formas de mensurar a sua importância de um ponto de vista global. 

Em entrevista ao Em Rede, Michel Bauwens, criador da P2P Foundation, chama a atenção para a necessidade de se qualificar essa fragmentação dos projetos de produção entre pares. Ou seja, é preciso enxergar a interconexão que há entre iniciativas geograficamente distantes que, na verdade, estão ligados em correntes de conhecimento global. Eu diria até mais: em correntes de ativismo global. Podemos citar aí tanto os projetos inspirados pela cultura hacker, que preconizam o conhecimento livre e a produção entre pares, como iniciativas de permacultura e ecovilas por todo mundo, que buscam inovações sustentáveis para a crise ambiental.  Não há necessariamente uma conexão em um nível individual entre esses diversos nós, mas todos pertencem a movimentos de dimensão planetária. E estão, cada um em sua localidade, promovendo mudanças concretas e palpáveis que, somadas, representam transformações mais amplas que não são tão evidentes à primeira vista.

Ao final da discussão, alguém lembrou do alimento orgânico, como o exemplo de algo que começou num nicho bastante específico e que está ganhando escala significativa. Hoje além de pequenos e grandes produtores dedicados aos orgânicos, temos no Brasil o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra que está investindo na agricultura orgânica e, assim, colocando vários temas em pauta: a qualidade do alimento, a sustentabilidade da agricultura e ainda a importância de políticas e estratégias para se manter o trabalhador rural na terra.

O debate suscitado na sessão temática, como se vê, acabou se desdobrando em uma discussão mais abrangente sobre o valor das pequenas ações coletivas na construção de uma nova sociedade. Talvez a resposta a essa questão ainda não esteja pronta, mas sim em construção nesse exato momento em centenas ou milhares de projetos cidadãos em desenvolvimento pelos quatro cantos do planeta. Que sigamos acreditando que eles podem sim fazer muita diferença!

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