Livros livres

Por Bia Martins

Nos tempos em que vivemos, de crise sanitária, política e econômica, é preciso mais do que nunca pensar em futuros possíveis. E, para isso, ainda não foi inventado nada mais potente que os livros, suas histórias e ideias, para servir de insumo para a imaginação e a produção de outros mundos.

No entanto, em grande medida, as publicações ainda estão fechadas pelas restrições de propriedade intelectual, com circulação bem limitada. Soma-se ainda o fato de que estamos em pandemia, portanto com receio de andar por livrarias ou bibliotecas. Por tudo isso, é muito bom saber que existem iniciativas voltadas à ampla circulação de obras que fazem pensar o momento presente. Neste post vamos apresentar três projetos brasileiros com esse objetivo: a Biblioteca do Comum, a Editora Fi e a Editora Monstro dos Mares.

Criada em 2017 pelo BaixaCultura em parceria com o Intersaber, a Biblioteca de Comum (já escrevemos sobre ela aqui) acaba de ser reativada. Seu acervo, dedicado especialmente à área de humanidades, abrange não apenas a tradição ocidental mas também outras cosmovisões, através de temas que ajudam a pensar os problemas contemporâneos com foco no fortalecimento dos bens comuns, da diversidade cultural e ecológica. As obras disponíveis não têm restrições de direitos autorais, seja por serem copyleft ou por já estarem fora dos catálogos das editoras.

Só para dar uma ideia da qualidade do acervo, um dos títulos em destaque é Pensar desde los comunes, de David Bollier, uma referência para quem se interessa pelo tema do comum. Outra obra, entre muitas, que merece ser citada é Ciencia, Cyborgs y Mujeres: La Reinvención de la Naturaleza, de Dona Haraway, outra publicação de relevância para pensar os tempos atuais.

Outro projeto, também voltado à ampla circulação das ideias, é a Editora Fi que publica textos acadêmicos como coletâneas, monografias, dissertações e teses que tenham padrão de excelência. As obras podem ser baixadas gratuitamente mas, se houver interesse, também é possível encomendar sua impressão. Todos os livros são protegidos com a licença Creative Commons 4.0 Atribuição-CompartilhaIgual CCBY-SA. O que quer dizer que é permitida a adaptação a partir do texto original, mesmo para fins comerciais, desde que seja atribuído o crédito de autoria e que as obras derivadas mantenham a mesma licença.

Entre os trabalhos acadêmicos publicados, vale mencionar Ética e Inteligência Artificial: da possibilidade filosófica de Agentes Morais Artificiais, de Paulo Antônio Caliendo Velloso da Silveira, um tema muito atual que precisa ser discutido. Outro título que merece destaque por sua originalidade é A história do livro na Amazônia: da escrita em pedra à tela do computador, organizado por Raimunda Dias Duarte, Valdir Heitor Barzotto, Deusa Maria de Sousa e Joyce Otânia Seixas Ribeiro. Ou ainda Epistemologias do Extremo Sul, organizado por Ananda da Luz Ferreira, Gilson Brandão de Oliveira Junior, Jéssica Silva Pereira e Maurício de Novais Reis.

Já a Editora Monstro dos Mares, em atividade desde 2012, tem a proposta de oferecer publicações de referência a baixo custo, que possam contribuir na formação de pessoas interessadas num modo de compreensão de mundo autônomo, libertário, não-binário e anárquico. Seu foco é em epistemologias dissidentes como teoria queer, feminismos, giro descolonial, anticivilização, cultura hacker e outros. Para ajudar a sustentar o projeto existe uma rede de apoio com várias formas de contribuição. Uma delas é a campanha recorrente no Catarse, que oferece prêmios aos colaboradores. 

Aqui sem dúvida encontramos os textos mais provocativos. Um deles é o zine Sobre o fenômeno dos trabalhos de merda, de David Graeber, por apenas R$ 1,00. Outro é Viver como se o mundo estivesse acabando, de Margareth Killjoy, por R$ 3,30. Ou ainda Vício Tecnológico, de Chellis Glendinning, por módicos R$ 5,00.

Ah, e tanto a Editora Fi como a Monstro dos Mares aceitam originais para análise. Taí uma oportunidade de colocar seus textos na roda.

Esses são alguns exemplos de projetos que fazem com que as ideias se propaguem e cheguem a um número maior de pessoas. Como sabemos, as ideias não são um bem rival, isto é, ao compartilhar uma ideia com alguém, eu não perco nada, ao contrário, na verdade a multiplico e fortaleço. Então é muito bom saber que essas iniciativas existem e torcer para que inspirem muitas outras. E vida longa e próspera para todos elas!

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