Privacidade Hackeada

Por Bia Martins

O documentário Privacidade Hackeada (The Great Hack) lançado pela Netflix em julho último reavivou o debate sobre o poder de manipulação dos algoritmos das grandes plataformas de comunicação, especialmente do Facebook, nas campanhas eleitorais.

O filme não é o primeiro a tratar desse assunto, embora certamente seja o que teve mais repercussão. Os excelentes documentários Driblando a Democracia: Como Trump Venceu, disponível no Vimeo, e Brexit, disponível no Youtube, contam mais ou menos a mesma história: de como a Cambridge Analytica usou os dados de milhões de eleitores para manipular as campanhas de Trump nos EUA e do Brexit no Reino Unido.

O título em inglês do documentário, The Great Hack, expressa melhor seu conteúdo: o grande ataque à democracia causado pela manipulação sub-reptícia das massas nos processos eleitorais via redes digitais. A questão da privacidade, que consta do título em português, está obviamente implicada no problema, pois tudo começa com a violação dos dados pessoais dos usuários das redes sociais, o que aponta para vários outros riscos, como já analisei neste post aqui. Mas o perigo para o qual o filme aponta está, como se diz, uma oitava acima: se a sociedade não conseguir impedir o uso dessas táticas eleitorais obscuras, é o totalitarismo que vemos despontar no horizonte como uma perspectiva concreta e assustadora em pleno século XXI.

A eleição de Trump foi a primeira evidência alarmante de que alguma coisa estranha e subterrânea provocara uma profunda mudança na processo eleitoral. Sua eleição surpreendeu o mundo todo, pois todas as previsões indicavam a vitória de Hillary. Logo depois veio a campanha do Brexit, quando as mesmas táticas de manipulação da opinião pública com fake news foi utilizada. E, mais recentemente, vivemos aqui no Brasil um processo eleitoral marcado pela disseminação de mentiras em uma dinâmica ainda mais perversa: as mensagens circularam principalmente por grupos fechados do WhatsApp, sem possibilidade de contraditório.

O documentário mostra em detalhe como foi feita a propaganda da Cambridge Analytica. Primeiro, com a coleta de dados de milhões de eleitores no Facebook, foi possível definir os perfis  psicológicos dessas pessoas que depois, por sofisticadas técnicas de amostragem, foram projetados para cada eleitor norte-americano. Com base nesses dados, foram identificados aqueles eleitores que não ainda tinham uma posição definida ou que estariam propensos a mudar de opinião. Por último, foram direcionadas propagandas mentirosas para esses eleitores, explorando suas emoções mais vulneráveis, como medo e raiva, levando-os a crer que a candidata adversária representava aquilo que eles temiam ou rejeitavam.

A história é contada através processo que David Carroll, professor de Media Design, abre contra a Cambridge Analytica para que a empresa entregue os dados que teria coletado dele. O processo ganha peso com a delação de dois antigos funcionários da Cambridge Analytica, Brittany Kaiser e Chris Wylie. Brittany principalmente participou de decisões e reuniões importantes e tem muito a dizer sobre as operações até então encobertas da empresa. A jornalista do The Guardian, Carole Cadwallard, foi também peça importante por escrever várias matérias sobre o processo, dando maior visibilidade ao caso.

Acuada, a Cambridge Analytica perdeu o processo e fechou as portas, certamente para dificultar a investigação pelas autoridades, destruir provas e escapar de um processo mais devastador e esclarecedor. O Facebook foi multado, Mark Zuckerberg teve que prestar contas ao Congresso norte-americano e se comprometeu a mudar a política de fornecimento de dados dos usuários aos anunciantes, mesmo que ainda paire dúvidas sobre em que medida isso realmente foi implementado.

Mas a ameaça não acabou. Aqui no Brasil, pudemos constatar que essas mesmas táticas de manipulação psicológica, através de notícias falsas que estimulam o medo e o ódio, foram centrais na eleição de Bolsonaro. Importante destacar que o personagem Steve Bannon, vice-presidente da Cambridge Analytica, esteve presente em todas as ocasiões: na eleição de Trump, na campanha do Brexit e, por último, um pouco escondido e dissimulado, como amigo de Eduardo Bolsonaro, filho do presidente eleito.

O filme cumpre um papel muito importante ao apresentar de forma detalhada essa denúncia para que o mundo possa tomar conhecimento do uso dessas táticas que ferem a democracia. Assim, expõe um grave problema e deixa claro que ele ainda não foi resolvido, ao contrário, talvez esteja ativo de forma ainda mais sutil e invisível. Falta ainda à sociedade encontrar instrumentos que possam fazer frente à essa terrível ameaça.

Ao final, fica uma pista nesse sentido. Brittany Kaiser, a ex-funcionária que delatou o esquema, participa agora da campanha #OwnYourData – algo como #SejaDonodosSeusDados – e David Carroll, que venceu o processo contra a Cambridge Analytica, defende que os cidadãos tenham Direitos de Dados como parte de Direitos Humanos. Lutas importantes, que precisam ganhar mais corpo e peso, para fazer com que nossos dados pessoais deixem de ser utlizados a nossa revelia e contra nossos interesses. Os dados são o novo petróleo, já disse alguém. Mas são mais do que isso, além de seu valor financeiro, representam nosso direito a muitos outros direitos, entre eles, o direito de ter eleições livres e justas.

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