Cooperativas de entregadores

Por Bia Martins

No mês passado, acompanhamos o Breque dos Apps, com dois dias de paralisação nacional dos entregadores de aplicativo (1º e 25 de julho) que, se não chegaram a parar o serviço no país, ficaram longe de ser fiasco. Isto porque, além de causarem atrasos nas entregas, deram  visibilidade para a extrema exploração a que estão submetidos esses trabalhadores, ajudando a desmistificar de vez a imagem da tal Economia do Compartilhamento como uma alternativa de trabalho autônomo. Aliás, já há um bom tempo escrevemos aqui sobre isso, alertando para o canto de sereia dessas plataformas.

A boa notícia, além claro do surgimento do movimento dos Entregadores Antifascistas, é que também ganharam visibilidade diversas iniciativas de entregadores que estão se autoorganizando para oferecer o serviço diretamente para os consumidores, sem intermediários, podendo assim garantir melhores condições de trabalho e remuneração mais digna.

Vale ler a entrevista com Paulo Lima, o Galo, dos Entregadores Antifascitas.

A inspiração vem de fora, onde há diversos exemplos. Na Espanha, destacam-se  a cooperativa Mensakas, em Barcelona, e La Pájara, em Madri, criadas após movimento grevista contra o aplicativo Deliveroo. Ambas são comprometidas com o direito ao trabalho digno e seguro e a promoção de uma economia social solidária.

Já existe até uma federação de cooperativas de entregadores de bicicleta, a CoopCycle, que reúne 30 cooperativas do tipo. Fundada em setembro de 2017, a organização se propõe a criar um modelo econômico anticapitalista, baseado no Comum, com uma política de lobbying e coordenação global. Eles desenvolveram um software, no modelo do cooperativismo de plataforma, com todos os recursos para que entregadores trabalhem de forma verdadeiramente autônoma, e que pode ser baixado livremente.

Uma nota importante, que vai ao encontro do que temos defendido aqui no Em Rede: o software utiliza uma nova licença, a Coopyleft, inspirada na Copyfarleft, que permite seu uso somente por empresas nas quais os trabalhares estejam vinculado no formato de cooperativa e que estejam alinhadas com a definição de economia social da União Europeia.

O vídeo documentário que abre este post, Reclaiming Work, mostra as mobilizações na Espanha e na França para criar uma alternativa cooperativa e autônoma ao modelo de exploração desenfreada dos aplicativos das grandes plataformas.

E, finalmente, vamos ao que interessa. Aqui no Brasil também começam a surgir iniciativas nessa linha. Em Porto Alegre existe a Pedal Express, ainda pequena, com sete entregadores. Como ainda não têm um aplicativo, atendem por whatsapp.

No Rio surgiu há pouco a Despatronados, com slogan "seu delivery carioca". Com dez entregadores, atendem boa parte da cidade, e trabalham com agendamento prévio que deve ser realizado no dia anterior por telefone, pois o aplicativo ainda está em desenvolvimento.

Em São Paulo, tem a Senoritas Courier, coletivo formado apenas por mulheres ou pessoas LGBT, que atende um nicho mais específico, voltado a marcas veganas e economias feminista e negra.

E, por último, os Entregadores Antifascitas também estão pensando em criar uma cooperativa de entrega. Você pode ajudar o movimento contribuindo com o financiamento contínuo no Apoia-se.  

São boas notícias, mas certamente a batalha ainda está longe de ser ganha pois não há comparação na dimensão do alcance das plataformas como UberEats, iFood e Rappi com o dessas iniciativas cooperativas. Mas elas são, sem dúvida, um passo importante na direção da criação de modelo econômico mais justo, que garanta remuneração digna aos trabalhadores.

É bom lembrar que cabe a cada um de nós, que acreditamos numa economia mais justa e solidária, valorizar essas alternativas e sempre optar por serviços de entrega que não representem a tremenda precarização do trabalho, como observamos agora no caso dos aplicativos de entrega que viram seus lucros crescerem estratosfericamente na quarentena, mas não ousaram distribuí-los com quem está na linha de frente do serviço.

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