DisCO Project - cooperativas voltadas ao comum

DisCO

Por Bia Martins

DisCO Project é uma iniciativa dentro do conceito de Cooperativismo de Plataforma, mas que vai além ao agregar também os princípios do comum, das práticas P2P e da economia feminista. Com inspiração no pensamento de autores como David Graeber (Bullshit Jobs) e Donna Haraway (Staying with the Trouble),  e a partir da experiência de alguns projetos já ativos, foi construída uma plataforma de recursos, conceituais e práticos, para incentivar a propagação desse movimento.

A iniciativa pretende superar alguns problemas que vêm sendo observados em cooperativas de plataforma que acabam por vezes repetindo práticas que, em tese, se propunham a combater ou ao menos se apresentar como alternativa. Isso acontece quando acabam se voltando mais ao mercado e priorizando na verdade valores neoliberais. O risco aqui é de que o bem comum gerado por esses projetos acabe enquadrado em novos mercados para a acumulação de capital.

Para isso, seguem a pista deixada por Elinor Ostrom, autora da obra Governing the Commons, que em suas pesquisas sobre comunidades cooperativas bem-sucedidas identificou que havia algumas diretrizes básicas seguidas por todas elas que norteavam seu sucesso. Assim, aprimorando e ajustando princípios que já são preconizados por outros movimentos, como os do Cooperativismo de Plataforma, as DisCo propõem sete princípios para embasar projetos de trabalho cooperativo:

COLOQUE SEU ESFORÇO ONDE SEU CORAÇÃO ESTÁ: RESPONSABILIDADE BASEADA EM VALORES – a produção é orientada não pelo lucro, mas por prioridades sociais e ambientais.

CONSTRUINDO GOVERNANÇA COMUNITÁRIA – a tomada de decisão e propriedade se estende a todos presentes em todas as cadeias de valor ou afetados pelas ações da cooperativa.

CRIADORES ATIVOS DE COMMONS – os comuns digitais (código, design, documentação e melhores práticas) e físicos (espaços de produção e deliberação, máquinas) são criados através de vários tipos de trabalho.

REEQUILIBRANDO A ESCALA: REPENSANDO A ECONOMIA GLOBAL/LOCAL – a produção física é mantida local enquanto conhecimento, recursos e valores são compartilhados globalmente com outros DisCOs.

TRABALHO DE CUIDADO É ESSENCIAL – são entidades vivas refletindo os valores de seus membros que precisam de cuidado e atenção para manter sua saúde e o bem-estar das pessoas que trabalham lá.

REIMAGINANDO A ORIGEM E FLUXOS DE VALOR – Três tipos de valor - valor de mercado, valor de criação do comum e valor do trabalho de cuidado - são rastreados através métricas complementares.

VOLTADOS PARA A FEDERAÇÃO – DisCOs se replicam por meio de um protocolo padrão federativo que permite massa crítica sem amarrar todas as partes.

Esses princípios são detalhados na publicação DisCO Elements, lançada recentemente, que lista ainda uma série de valores para alicerçar uma experiência cooperativa que esteja atenta à construção do comum, ao cuidado, preconizando uma governança estendida e distribuída, além da perspectiva ecológica. Além disso, traz referências de recursos teóricos e práticos para ajudar na criação de uma cooperativa dentro desse modelo.

No site disco.coop é possível conhecer um pouco mais alguns projetos que já estão em andamento, como Guerrila Media Collective, sobre o qual já escrevemos aqui, e também baixar o DisCO Manifesto. Em destaque, o modelo de governança e gestão econômica baseado no comum para a auto-sustentabilidade que vem sendo experimentado por essas iniciativas.

Para nós do Em Rede, que desde 2017 estamos escrevendo sobre a necessidade de se buscar a orientação do comum para construir alternativas ao Capitalismo de Plataforma, e não apenas denunciá-lo, é um alento ver uma iniciativa como essa ganhando corpo e força.

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