Economia Solidária

Por Bia Martins

Quando se fala atualmente em economia peer-to-peer ou economia do comum, geralmente as referências são de exemplos bem recentes e em sua maioria internacionais, como é o caso das iniciativas do Cooperativismo de Plataforma, do qual falamos aqui.

Porém, o Brasil tem já ampla experiência em uma vertente da economia do comum que merece ser mais conhecida: a economia solidária. Essa prática surge na Inglaterra no século XIX, vem para o Brasil no século XX, tendo maior desenvolvimento a partir da década de 1980. De 2003 a 2016, houve inclusive uma política nacional coordenada por Paul Singer, que foi Secretário Nacional de Economia Solidária durante os governos do PT. Em suas palavras:

“Nós costumamos definir economia solidária como um modo de produção que se caracteriza pela igualdade. Pela igualdade de direitos, os meios de produção são de posse coletiva dos que trabalham com eles – essa é a característica central. E a autogestão, ou seja, os empreendimentos de economia solidária são geridos pelos próprios trabalhadores coletivamente de forma inteiramente democrática, quer dizer, cada sócio, cada membro do empreendimento tem direito a um voto.”

A economia solidária baseia-se, portanto, em relações de parceria, pautadas na auto-organização dos envolvidos que decidem de forma coletiva e democrática os rumos das iniciativas. Em 2008, havia já 22 mil empreendimentos de economia solidária no país em diversas áreas. Um dos exemplos são as fábricas recuperadas, isto é, empresas privadas que foram à falência ou estavam insolventes e, para não serem fechadas, passaram a ser administradas pelos próprios trabalhadores em regime de autogestão, garantindo assim trabalho e renda a centenas de famílias. Este é o caso da Cooperminas, em Criciúma (SC), administrada desde 1998 por seus trabalhadores como uma cooperativa.

Outra vertente da economia solidária são as moedas sociais, criadas para viabilizar transações econômicas de forma alternativa que circulam em determinadas regiões, como comunidades, aldeias indígenas, assentamentos, vilas de pescadores etc. São elas que viabilizam também as transações em outra modalidade da economia solidária, os clubes de troca, lugares onde as pessoas se reúnem para trocar bens ou serviços. A primeira moeda social brasileira foi a Palmas, criada há 20 anos na favela do Conjunto Palmeiras, em Fortaleza (CE). O sucesso da iniciativa, que se desdobrou na fundação do Banco de Palmas, inspirou a replicação da ideia por todo país. Segundo dados de 2020, existem atualmente 117 moedas sociais em circulação em todo território nacional. Para se ter noção de sua escala e relevância, elas movimentaram o equivalente a 42 milhões de reais entre abril de 2015 e 2018.

E para finalizar esse breve apanhado sobre economia solidária vale dar o exemplo da Justa Trama, considerada uma cadeia produtiva. A produção começa no Ceará, com agricultores orgânicos que cultivam algodão. Segue para São Paulo onde é feita a fiação em uma empresa recuperada. Em seguida, outra empresa recuperada faz os tecidos e, por último, cooperativas de confeccionistas e costureiras transformam esses tecidos em uma grande variedade de produtos para serem vendidos. Trata-se na verdade de uma rede de cooperativas de segundo grau já que envolve diversas cooperativas na produção, demonstrando como pode ser extensa a capilaridade da economia solidária. 

Como se vê, a economia solidária abrange uma grande variedade de iniciativas e de trabalhadores, proporcionando condições de subsistência para muitas famílias. Com uma sólida história no Brasil, pode apontar caminhos alternativos muito interessantes para enfrentar a crise econômica que vivemos.

Conhece alguma iniciativa de economia solidária? Compartilha com a gente. Vamos ajudar a espalhar essa ideia.

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