Hacker, criminoso ou ativista?

Por Elisiana Frizzoni Candian
Professora e pesquisadora - Doutoranda na Universidade Federal de Juiz de Fora

Tem me incomodado bastante uma série de definições equivocadas de hacker que estão circulando, ainda mais agora com o #vazajato e com a suposta invasão dos celulares do ex-juiz Sérgio Moro e outros procuradores da Operação Lava Jato por hackers. Por isso, decidi compilar nesta publicação um pouco do que tenho desenvolvido para minha tese de doutorado, em que estudo as relações entre "Cultura Hacker" e o campo da Educação. (acho que ficou meio acadêmico demais... tenho muita dificuldade para escrever livre das amarras acadêmicas).

Pra começar, é preciso dizer que, apesar da direta associação entre Hacker e Criminoso Digital feita possivelmente por você que me lê, meus estudos me mostraram que não é tão simples assim. Ao buscar pela origem da palavra Hacker a encontrei advinda no verbo "to hack", aplicada à arte de cortar grosseiramente, ou à arte de esculpir e entalhar em madeira. 

Posteriormente a palavra começou a ser usada para apelidar os integrantes do Clube de Ferromodelismo (Tech Model Railroad Club, TMRC) do Massachssets Institute of Technology (MIT).

Apesar de outra definição de hackers te dizer sobre pessoas aficionadas por computadores e por informática, só depois de já serem denominadas de hackers que integrantes do clube foram apresentadas ao computador TX-0 (veja aqui: https://es.wikipedia.org/wiki/TX-0) e passaram a dedicar suas vidas a programar softwares.

Assim, segundo o Professor Nelson Pretto (2010), “interessados no desenvolvimento tecnológico e nas mudanças do mundo, começaram a desenhar programas e máquinas a partir de uma nova linguagem que começava a ser escrita”.

A aproximação que a mídia faz entre hackers e ciberterroristas é bastante datada, como mostra a pesquisa The media portrayal of hack, hackers and hacktivism before and after Septembers'11 publicada em 2005 na Revista First Monday, por Sandor Vegh. Vegh analisou como após o 11 de setembro o debate sobre a segurança do ciberespaço nos EUA influenciou negativamente os movimentos ativistas políticos on-line (hacktivistas, por exemplo), que agora são forçados a se defender das autoridades, que os rotulam como ciberterroristas. 

Durante um ano, Vegh acompanhou cinco dos maiores jornais estado-unidenses (New York Times, Wall Street Journal, Washington Post, San Jose Mercury News, USA Today) se referiam ao hacker como terrorista. Nasceu, por exemplo, a sentença "hacker terrorista". Apesar da inexistência de conexão entre as duas palavras, ao aparecerem juntas, colaboram por conectar na mente pública tal preconceito. Ao contrário, segundo o autor, as atividades eventualmente desenvolvidas por hackers “de cunho social e politicamente progressistas”, permanecem desconhecidas do público.

No site do Hackerspace Garoa Hacker Clube, o entendimento de hackers como praticantes de crimes digitais é um grande equívoco. É dito ainda que a definição de hackers como pessoas que apenas invadem sites, ou como especialistas em segurança da informação, ou mesmo como desenvolvedores de software livre “é uma visão muito estreita e distorcida”, que se aproxima bem pouco do que um hacker realmente pode ser.

Os próprios hackers se utilizaram da palavra cracker em 1985 para se diferenciarem, uma vez que, segundo o hacker Erick Raymond (2000) crackers destroem coisas, ao contrário, hackers constroem.

O jornalista Steven Levy no livro "Hackers: Heróis da Revolução" (1984) sistematizou seis princípios que ficaram conhecidos por orientarem o "fazer hacker", ou como Ética Hacker. Acredito que, para além da computação, esses princípios nos mostram como o “espírito hacker” se baseia na necessidade de se compreender como a sociedade se constituí e, por isso, são alvo de tanta desconfiança e perseguição por parte dos nossos governantes e das grandes empresas que insistem em não serem transparentes em suas práticas (como exemplo, cito: Facebook, Google, Amazon etc.)

O primeiro dos princípios prevê que: “O acesso aos computadores – e a tudo que se possa ensinar algo sobre o funcionamento do mundo – deve ser ilimitado e total”.
O segundo diz respeito à informação que “deve ser aberta e gratuita”.

Já o terceiro princípio, determina que se “Desconfie da autoridade – promova a descentralização.”. Assim, os hackers defendiam a livre circulação de informações e do conhecimento por meio de um sistema aberto, livre de qualquer tipo de burocracia e hierarquia – corporativista, governamental ou acadêmica –, em outras palavras, as verdades e as autoridades [ou talvez o autoritarismo como certas verdades são impostas] podem ser questionadas, e isso se dá por meio do acesso às fontes de informação acerca de determinado campo do conhecimento. (Privacidade para cidadãs e cidadãos. Transparência para os poderosos.)

O quarto item dessa ética diz respeito a necessidade de se avaliar “Os hackers por seus resultados práticos, e não por falsos critérios como formação acadêmica, idade, raça ou posição social, [acrescento gênero]” 

O quinto item, apesar da dureza da máquina, diz respeito à possibilidade de se “criar arte e beleza em um computador.”

O sexto princípio prevê que “Computadores podem mudar sua vida para melhor”. Segundo Levy, os hackers implicados no projeto do TX-0 tiveram suas vidas, certamente, modificadas e por isso, acreditavam no poder dos computadores em beneficiar a vidas de mais pessoas. Acreditavam que “todo mundo se beneficiaria em um mundo com a Ética Hacker”. Eles sabiam sobre os potenciais da computação para modificar o mundo, “conduzindo às pessoas a olhar e interagir com os computadores de um modo novo”. Na época, os computadores eram enormes e inacessíveis para as pessoas comuns, portanto, o desenvolvimento dos computadores pessoais começou a acessibilizar as máquinas e por isso, a transformar a vida de mais pessoas. 

Basicamente, podemos definir hacker como àquelas ou àqueles que acreditam que o conhecimento tem poder de modificar a realidade.

Eu gosto muito de pensar na possibilidade de se ampliar de conceito de hacker, como sugeriu um cara chamado Manuel De Landa. Ele defende a necessidade de se adotar uma “atitude hacker”, que vá além conhecimento técnico ligado aos sistemas operacionais, mas alega que tal atitude deve ser transplantada para aprender economia, sociologia, física, biologia, enfim, para hackear a própria realidade. E como fazer isso? Sugiro que vocês conheçam um pouquinho mais a respeito desse "mundo" e das ações desenvolvidas por hackers em espaços chamados hackerspaces, a partir desse vídeo em que a Ka Menezes (membra do Raul Hacker Club) define bem tudo isso.

Confira também a recente entrevista da Ka ao Em Rede.

PS: A foto da publicação foi compartilhada há tempos pela página do Garoa Hacker Clube e eu a salvei no meu PC.

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