Tecnologias livres para um futuro em nossas mãos

Por Bia Martins

A tecnologia do futuro com frequência é apresentada numa visão distópica. Como no filme “2001 – Uma Odisseia no Espaço”, de Stanley Kubrick, no qual o robô Hall, que comandava a aeronave interespacial, se volta contra os tripulantes, exterminando-os.

O imaginário que fica por trás dessa ideia de um inteligência artificial que trai o humano é em essência a imagem de uma caixa-preta. Uma caixa-preta como algo indecifrável, como aquilo que não se pode conhecer, muito menos prever o comportamento. De certo modo, os avanços tecnológicos estiveram durante muito tempo ligados a essa ideia: dispositivos insondáveis, que fazem coisas incríveis, mas que também podem nos ameaçar.

Por exemplo, os nosso smartphones, equipamentos modernos que usamos, mas não sabemos direito como funcionam. Dispositivos que facilitam tanto a nossa vida, mas que também podem servir para monitorar os nossos atos: onde estivemos, que busca fizemos, o que compramos etc etc. Esse monitoramento, aparentemente inócuo, pode nos prejudicar e muito, como já escrevi aqui.

Pois bem, então como se pode inverter isso, pensar em decifrar essa caixa-preta para incluir o humano? As tecnologias livres são um caminho e, para facilitar a sua apresentação, vou usar alguns conceitos.

O primeiro conceito é o copyleft que se desdobra no segundo conceito que é a colaboração.

Copyleft é a inversão do copyright. As tecnologias que têm licenças desse tipo, seja software ou hardware, lhe dão a liberdade para executar, estudar, distribuir, modificar à vontade. No entanto, você é obrigado a manter as mesmas liberdades, numa espécie de círculo virtuoso no qual as tecnologias livres servem de base para criação de mais e melhores tecnologias livres.

São tecnologias abertas, tanto software quanto hardware. O software livre cujo código pode ser lido e modificado por qualquer usuário. O hardware livre cujo design da mesma forma é aberto, pode ser conhecido e modificado por qualquer usuário.

E na medida em que as tecnologias são abertas, todas as pessoas que se interessem por ela podem trabalhar colaborativamente para aperfeiçoá-la ou customizá-la de acordo com suas necessidades.

Ao redor do mundo há inúmeras iniciativas voltadas ao desenvolvimento dessas tecnologias livres. E o que acontece? Um aperfeiçoa ou customiza o que foi inventado pelo outro, de forma que a tecnologia é constantemente incrementada.

Vamos então a alguns exemplos concretos do que é isso na prática e de como pode funcionar para incentivar valores humanos.

Public Lab

Balão acolplado à câmera digital para monitorar o meio ambiente se tornou a marca do Public Lab

Um primeiro exemplo é o Public Lab, criado como uma iniciativa civil em resposta à falta de transparência das informações a respeito do vazamento da British Petroleum, no Golfo do México em 2010.

Logo após o incidente, havia muito pouca informação a respeito da dimensão do vazamento e suas consequências (media blackout). Até mesmo os jornalistas tinham dificuldade de ter acesso aos dados.

Então, a fim de gerar dados autônomos sobre a extensão da poluição causada pelo acidente, um grupo de moradores, ativistas ambientais, designers e cientistas sociais se reuniram e criaram um dispositivo feito de uma câmera digital acoplada a um balão para colher dados em tempo real do impacto do vazamento. Este balão posteriormente virou o símbolo do Public Lab.

Na ocasião, foram tiradas mais de 100 mil imagens aéreas, posteriormente armazenadas em uma espécie de mapa colaborativo de alta resolução que depois serviu de fonte para pesquisadores e jornalistas, foram divulgados pela BBC e pelo New Yor Times, permitindo que os moradores conhecessem e divulgassem o que de fato estava acontecendo no Costa do Golfo e, consequentemente, pudessem cobrar providências mais adequadas das autoridades.

O sucesso dessa iniciativa de mapeamento cidadão colaborativo se desdobrou na criação do Public Lab como um espaço de pesquisa e desenvolvimento de ferramentas de baixo custo para o monitoramento cidadão da água, do ar e da terra. A entidade hoje conta com sedes em vários estados norte-americanos e compartilha suas invenções com o mundo todo. Essas ferramentas para o mapeamento aéreo têm sido usadas, além de nos EUA, em países diversos como Espanha, Grécia, Iraque, Austrália etc.

Aqui entra o terceiro conceito, da autonomia que se traduz tanto na possibilidade de que cidadãos decidam o que é importante pesquisar e que tipo de ferramentas é preciso criar, como também na busca por soluções no estilo Do It Yourself ou Faça Você Mesmo, ferramentas de baixo custo que podem ser replicadas por qualquer pessoa com um mínimo de habilidade com tecnologia em várias partes do mundo.

Tem um conceito interessante, usado pelo pessoal do Public Lab, que é o do Small Data, me contraposição ao Big Data. Se o Big Data pode ser útil nos projetos de smart cities, também são caixas-pretas que armazenam infinitos dados sobre nós que não sabemos direito como e para que serão usados. Já o Small Data são dados abertos, isto é, qualquer pessoa com algum entendimento de banco de dados pode ver que informações estão ali e como foram coletadas. E são fruto de iniciativas cidadãs, voltadas para causas sociais ou ambientais. 

Um exemplo aqui no Brasil que tem a ver com rede de colaboração e autonomia é o coletivo Código Urbano, que instalou 12 sensores DustDuino, distribuídos pela PublicLab, para medir a poluição atmosférica na cidade de São Paulo, de 2015 a 2017. O objetivo era ter dados mais confiáveis sobre a qualidade do ar na cidade, já que o único sistema de monitoramento existente, da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb), utilizava padrões defasados em relação aos recomendados pela Organização Mundial de Saúde (OMS).

Código Urbano

Dispositivo DustDuino instalado pelo Código Urbano na cidade de São Paulo 

Interessante mencionar que o Garoa Hacker Clube participou dessa inciativa. O Garoa foi o primeiro hackerspace criado no Brasil, é um dos mais ativos atualmente e uma referência para o movimento hackerspace no Brasil. Hackerspaces são espaços onde se reúnem pessoas interessadas em explorar as tecnologias livres de forma colaborativa.

Os hackerspaces também têm participado desse movimento de invenção de tecnologias livres com fins cidadãos. Por exemplo, o Tokyo Hackerspace que criou um dispostivo no estilo Faça Você Mesmo para monitar os níveis de radiação atmosférica em áreas habitadas, logo após a tragédia de Fukushima, no Japão, em março de 2011. Qualquer pessoa com alguma habilidade em eletrônica poderia reproduzir o artefato em casa, e dessa forma a população pôde ter informação confiável sobre a contaminação radiativa de forma independente.

Inspirados no exemplo de Tóquio, o Calango Hacker Clube, de Brasília, desenvolveu o projeto Monitora Cerrado para medir de forma autônoma o nível de umidade na capital federal, que é um índice crítico para a população local. Atualmente existem oito estações de monitoramento da umidade, em pontos diferentes da região. Os dados ficam disponíveis on-line e podem ser consultados em tempo real pelos moradores de Brasília.

Monitora Cerrado

Painel do Monitora Cerrado criado pelo pessoal do Calango Hacker Clube

Por fim, o último conceito que deve ser destacado é o de comum ou commons. Isto é, o objetivo é criar tecnologias livres que fiquem disponíveis para todos e que se constituam assim em um bem comum.

São inúmeras iniciativas pelo mundo todo baseadas nesses conceitos – copyleft, colaboração, autonomia e comum – que formam uma imensa rede de tecnologias livres voltadas para as mais diversas demandas sociais, ambientais, educacionais, científicas etc. Um ponto importante a se destacar em todas essas ferramentas é o seu baixo custo.

Então, reuninado a programação e o design aberto + a colaboração entre as pessoas do mundo todo para aperfeiçoá-la + a autonomia para fazer do seu jeito + o baixo custo = um bem comum para todos.

Um último caso que gostaria de apresentar aqui é o das redes livres. Com finalidades diversas: para garantir o direito à comunicação em regiões remotas onde os provedores comerciais não têm interesse em chegar ou em comunidades carentes que não podem arcar com os altos custos dos serviços privados, sua abrangência de é bem ampla: desde telefonia e acesso internet, até mesmo transmissão de emissoras comunitárias de rádio e TV.

Redes Livres

Coolab, Guif.net e Rhizomatica instalam redes livres em comunidades antes desconectadas

Uma referência importante em nível mundial é a Guifi.net, na Espanha. Criada em 2004, essa rede de telecomunicação comunitária conta com mais de 35 mil nós ativos e cobre cerca de  63 mil km  de conexão sem fio.  É uma rede auto-organizada e operada pelos próprios usuários. Abrange especialmente a região da Catalunha e de Valencia, mas vem se expandindo por outros países. Está baseada no conceito de commons, isto é, a telecomunicação é vista como um bem comum, que deve estar disponível a todos, e para isso deve ser livre, aberto e respeitar o conceito de neutralidade.

Há vários outros exemplos de redes livres pelo mundo. Aqui na América Latina, o destaque é para a Rhizomatica, que começou em 2009, no México, e hoje desenvolve alternativas em telecomunicação por todo mundo tendo como critério a autonomia comunitária, auto-organização, infraestrutura descentralizada e engajamento crítico com a tecnologia. Com seu apoio, por exemplo, foi construída, com doações da própria população, uma rede de rádio com software livre na região de Oaxaca, que atende a 17 comunidades e conta atualmente com cerca de 3 mil usuários de serviço de telefonia móvel autônoma.

Aqui no Brasil, temos o coletivo Coolab, uma iniciativa que tem por objetivo  fomentar infraestruturas autônomas, oferecendo técnica com envolvimento da comunidade e, sempre que possível, financiando esses projetos. Um deles foi em Juruti Velho, povoado fundado pelos índios Munduruku na fronteira entre os estados do Pará e Amazonas, que por ter baixa densidade populacional não possui a maior parte dos serviços de telecomunicações comerciais comuns nos grandes centros, nem mesmo rede de telefonia celular. Com apoio do prêmio da Mozilla Foundation foi instalada uma rede mesh na região conectando 2 mil pessoas, tendo como princípio a autonomia. Isto é, o projeto de implantação da rede se deu junto com a população local, capacitando os moradores locais a se tornarem eles mesmos os gestores da rede. 

Se o futuro tecnológico pode parecer assustador, como todo o imaginário distópico de máquinas que não conhecemos nem controlamos, as tecnologias livres são a perspectiva da construção de um futuro mais humano. Um futuro no qual possamos criar as tecnologias que precisamos para cuidar do planeta, para expandir a educação, para nos conectar mais amplamente.

O futuro que podemos criar juntos, em colaboração e com autonomia, tendo em vista a construção de um bem comum a todos. Para isso, as tecnologias livres são uma perspectiva mais do que promissora, são já uma realidade que tem se expressado em inúmeras iniciativas ao redor do mundo. Aqui apresentei apenas algumas delas. Espero que tenha conseguido oferecer um bom panorama do potencial que temos para forjar o futuro tecnológico com nossas próprias mãos.

* Este é o resumo da minha fala no PicNic Brasil 2018 realizado nos dias 1 e 2 de novembro de 2018, no Rio de Janeiro.

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