Antropofagia: releituras contemporâneas

Reynaldo Carvalho

"Nenhuma superfície é virgem, tudo já nos chega áspero, descontínuo, desigual, marcado por algum acidente: o grão do papel, as manchas, a trama, o entrelaçado dos traços, os diagramas, as palavras."

Roland Barthes

1) - Livro: Antropofagia Hoje? - Oswald de Andrade Em Cena - João Cezar de Castro Rocha e Jorge Ruffinelli.

Antropofagia hoje?

Sinopse: “Ainda é possível propor uma releitura da teoria cultural de Oswald de Andrade? Vale a pena (mais uma vez!) reinterpretar a antropofagia? É possível convertê-la numa forma crítica de entendimento da realidade contemporânea? A tarefa não é fácil, pois aconteceu com a antropofagia o inevitável: tanto se falou nos manifestos oswaldianos que o assunto parece completamente esgotado.

A fim de responder afirmativamente, Antropofagia Hoje? Oswald de Andrade em Cena reúne 44 ensaístas e 13 escritores com o mesmo objetivo: explorar o potencial analítico e filosófico da antropofagia oswaldiana. Trata-se de destacar a relevância de sua proposta no mundo atual. Ora, se o grande dilema contemporâneo é inventar uma imaginação teórica capaz de processar a vertigem de dados recebidos ininterruptamente, então, a antropofagia oswaldiana pode tornar-se uma alternativa relevante para a redefinição da cultura contemporânea.

Por isso, este livro pretende estimular novas abordagens da obra de Oswald de Andrade, buscando entender a antropofagia como um exercício de pensamento cada dia mais necessário nas circunstâncias do mundo globalizado, pois ela permite que se desenvolva um modelo teórico de apropriação da alteridade.

Em última instância, esse é o significado mais instigante da antropofagia, já vislumbrado visionariamente pelo antropófago-mor Arthur Rimbaud: ‘Je est un autre’. E é apenas através do outro que podemos conhecer (um pouco) de nós mesmos.

No mundo atual, caracterizado por um fluxo incessante de informação, aliado a uma vertiginosa pluralidade de meios de comunicação, talvez não haja tarefa mais importante que o desenvolvimento de uma imaginação teórica capaz de processar dados oriundos de múltiplas circunstâncias e contextos. Neste livro, compreende-se a antropofagia oswaldiana como a promessa de uma imaginação teórica da alteridade, mediante a apropriação criativa da contribuição do outro”.

Ver mais em:

 

2) - “Vanessa Ramos-Velasquez criou uma teoria e poema-manifesto com uma nova visão projetada na Revolução Digital, tendo como ponto de partida o Manifesto Antropófago, escrito pelo autor modernista brasileiro Oswald de Andrade em 1928. O original foi uma afirmação da voz única brasileira na época moderna emergente, longe dos clichês do colonialismo, embora assumindo abertamente a metabolização de referências vindas do Primeiro Mundo. A releitura criada por Ramos-Velasquez por sua vez, em Antropofagia Digital, contendo o Re-Manifesto Antropofágico para a Era Digital visa atualizar a prática antropofágica do canibalismo cultural para a Era Digital num mundo de co-existência virtual que está se transformando na nova fronteira a ser colonizada e onde qualquer um pode vir a ser o colonizador. Ramos-Velasquez propõe que ‘Antropofagia Digital’ seja:

• a soma das práticas antropofágicas se feita virtualmente, ou seja, com ajuda de computadores, plataformas de redes sociais ou outros dispositivos digitais, ou se for executada na realidade, mas facilitada digitalmente.

• Um novo paradigma dos modelos de entrada/saída (input/output) geradas através da Internet.

• Uma nova prática de consumo cultural que envolve uma mediação tecnológica para a entrada (alimentação: tanto o ato de alimentar como o de ser alimentado), a digestão, e a excreção.

 

RE-MANIFESTO ANTROPOFÁGICO PARA A ERA DIGITAL

Quem descobriu quem?

Foram os Portugueses que descobriram os índios brasileiros só porque aqueles fizeram o esforço de construírem suas caravelas, botarem-nas no mar e seguirem a viagem longa?

Por que não ao contrário?

Só porque os índios se encontravam numa posição passiva de meramente estarem de olhos abertos e avistarem esses estrangeiros?

Quem comeu quem?

Desde vossa descoberta, levaram nossas cores para alegrar com um vermelho brilhante vossos eclesiásticos e reis, enquanto lhes contagiamos com nossos sorrisos incansáveis. Agora deixe-nos prová-los nas vossas novas vestimentas. Gostaríamos de ver-lhes através de vossos olhos arregalados e incorporar vossa alegria assimilada.

É tarde demais para voltar e contestar. Aceitemos tudo do passado, mas viremos a mesa para o futuro. Comemos tudo e engolimos a seco, mas agora cuspamos com bastante sabor que é pra fazer bem aos olhos estrangeiros e deixá-los hipnotizados com tanta gula.

Levaram todo nosso pau-brasil, deixaram-nos só com o nome Brasil enquanto nos meteram o pau.

Então, ponham sua carapaça, pois agora é a nossa vez com o bastão!

Pindorama não é mais! Nunca! Não volta atrás! Eis o índio tecnológico da revolução digital que quer mais do que apito!

Queremos mais do que seus brancos e negros trazidos de terras distantes, dê-nos seus coloridos dados dos mundos virtuais. Mas queremos nos achar sem nos perder nas profundezas de selvas ainda não desbravadas.

Primitivo agora tá acabando, só vão achar Engarrafados e Enlatados em matas peladas!  Tudo já foi descoberto e desvendado. Será que teremos que retornar a sermos crianças contentes com pré-logismo ou será suficiente o lojismo de revoluções esquecidas a cada ano conforme novas versões nos ditarem?

À quem pertence o grito contemporâneo:

Viva a Inocência e a Pureza! Que não se percam no vazio pós-moderno da Matrix, o novo umbigo do mundo!

Viva a ignorância do infantil desconhecido da pixelândia!

Dessa vez qual será a contribuição milionária de todos os erros?

Viva o En-Tropicalismo de todos os Suls.

Viva o Lepitópi, o verdadeiro Muiraquitã da felicidade!

E se alguém apertar a tecla ‘delete’ será que vai apagar a história? Velhos bons tempos aqueles do telefone vermelho? Era só um botãozinho de difícil acesso reservado a um ou dois loucos apenas. Agora todo desvairado tem um!

Então vamos assoprar os apitos nos Cabaré Voltaires de toda esquina.

O sweat shop da mente não para; o sangue, suor e cerveja rola infinito enquanto o futebol, carnaval, café, pingas, e mulatas deixam tudo fosforescente e tinindo. O barquinho vai e a tardinha cai com a noite já se erguendo e sua lua disputando espaço com nosso sol.

Nosso neoconcretismo, é seu concretismo, façamos tudo direito, esquerdo, ou de trás pra frente, não importa, é tudo unisex, one-size fits all, made in China, importado e exportado até o fiofó fazer bico.

Nosso canibalismo é sua fonte de renda e orgulho de estarem nos alimentando. Seu lixo é nossa riqueza que revendemos por muito mais. Nossa pobreza é sua janela pra alimentarem sua curiosidade. Portanto não reclamem quem usa quem, ou quem come quem. Essa estrada tem ida e volta e ninguém precisa ficar preso no caminho.

Na natureza, nada se perde, nada se cria, tudo se transforma; e agora na nova idade onde tudo é 1’s e 0’s, façam sua própria matemática e mistureba, vejam o que sai do liquidificador antropológico, que de lógico não tem nada.

Invenção é a mãe da necessidade.

Transfiguração é a reação de existir.

Manifestação é a subversão da verdade aprendida em ação.”

Ver em http://www.quietrevolution.me/Re-Manifesto_Antropofagico.html

 

3) - Livro: Antropofagia - Palimpsesto Selvagem - Beatriz Azevedo

Antropofagia - Palimpsesto Selvagem

Trecho do prefácio:

“Que temos nós com isso?”

Eduardo Viveiros de Castro

“Antropofagia – Palimpsesto Selvagem é talvez a primeira leitura realmente microscópica do Manifesto Antropófago, texto fundacional para a sensibilidade cultural contemporânea, tanto ‘aqui dentro’ como, cada vez mais, ‘lá fora’. O livro de Beatriz Azevedo é um close reading de valor histórico, didático e analítico inestimável.

Em um verdadeiro trabalho arqueológico, a autora recobra muitas das fontes esquecidas ou ignoradas das abundantes alusões enigmáticas (sobretudo para o leitor de hoje) contidas no Manifesto; comenta e elucida linha a linha, aforismo a aforismo, esse texto extraordinariamente complexo, por baixo — palimpsesto — de sua concisão telegráfica e sua alegre ferocidade lapidar; destaca-lhe a arquitetura rítmica, verbal como visual, sua (a)gramaticalidade poética e sua radicalidade político-filosófica; persegue, na produção posterior de Oswald, os fundamentos, os desenvolvimentos, as explicações — no sentido literal de desdobramento do que estava implicado, implícito, compactado — e as retomadas em modo dissertativo ou conversacional das teses, revolucionárias então como revolucionárias hoje e amanhã, enunciadas, ou melhor, anunciadas no Manifesto.

O livro de Beatriz Azevedo, somando-se à já vasta ‘oswaldiana’, acrescenta-lhe uma camada de comentário destinada a se tornar referência obrigatória para todo estudante ou estudioso da obra deste que é, sem a menor sombra de dúvida, um dos maiores pensadores do século XX”.

Leia a Dissertação de Mestrado apresentada pela autora do livro ao Programa de Pós-Graduação do Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo  USP. 

Diversas matérias podem ser lidas em http://www.beatrizazevedo.com/livros/antropofagia-palimpsesto-selvagem/

Até a próxima.

 

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