Dois livros-delírio

Reynaldo Carvalho

"Nenhuma superfície é virgem, tudo já nos chega áspero, descontínuo, desigual, marcado por algum acidente: o grão do papel, as manchas, a trama, o entrelaçado dos traços, os diagramas, as palavras."

 

Roland Barthes

 

Já comentei anteriormente que neste espaço atuarei como um IJ (Idea Jockey), termo cunhado pelo professor Ronaldo Bispo dos Santos, do curso de Comunicação Social da UFAL, e que nomeia o profissional, artista, intercessor ou instigador cultural que seleciona e disponibiliza visualidades, ideias e sonoridades: se o VJ (Video Jockey) edita imagens e o DJ (Disc Jockey) mixa músicas, o IJ faz além disso, porque divulga vídeos, áudios, pensamentos e fragmentos textuais, objetivando experimentações rizomáticas e a difusão de multiplicidades conceituais. Assim, esta seção não possui nenhuma pretensão de divulgação acadêmica, é lugar para divagações aleatórias sobre a era remix e assuntos correlatos.

Com referência ao último post, um interlocutor do Em Rede, o senhor João da Silva, escreveu algo que quero compartilhar: “Taussig é excelente, pena q lido no Brasil por antropólogos que só sabem pensar em linha reta, jamais chegou sequer perto de ser entendido. Enfim, é um autor cuja leitura exige uma certa cultura. Se alguém tiver a oportunidade de ler Mimese e Alteridade, ou O Túmulo de Benjamin, q acho q só tem em inglês, vai ver do q estou falando. Sem falar desse sobre xamanismo, talvez o melhor escrito sobre mais esse ismo ocidental até hoje.”

De Michael Taussig, antropólogo que não segue à risca os ainda preponderantes padrões acadêmicos modernos, apresento mais um livro-delírio, que é uma aula notável sobre possibilidades metodológicas mais ousadas, e que pode ser de inestimável valor para teóricos da literatura, artistas plásticos, cineastas, arquitetos, para todos os que se dedicam a pesquisar saberes insurgentes e desobediências epistêmicas.

I Swear I Saw ThisUma ótima resenha desse livro, intitulada O delírio como outro modo de ver: um diálogo entre xamanismo, imagem e escrita, foi elaborada por Daniela Feriani.

Resenha de: Taussig, Michael. 2011. I swear I saw this: drawings in fieldwork notebooks, namely my own. Chicago e Londres: The University of Chicago Press.

Trechos:

“Como experimentar uma experiência através da escrita? O livro de Michael Taussig faz isso de duas maneiras: escreve sobre uma experiência e faz da própria escrita uma experiência. Trata-se de uma experiência peculiar: a alucinatória. (...)

Nesse livro-delírio, Taussig consegue, com provocação e criatividade, falar sobre algo sem tirar sua aura misteriosa, revelar mantendo a qualidade alucinatória, numa dobra constante entre aparição e desaparição, visível e invisível, clausura e transbordamento.

Existe, assim, uma correspondência entre o que o livro diz ser o caderno de campo e como ele o faz: a experiência e a narrativa, o conteúdo e a forma tornam-se, pois, indissociáveis. Se, para Taussig, o diário de campo é um álbum de recortes que você lê e relê em diferentes modos, encontrando significados e combinações inesperados bem como becos sem saída, o livro também é essa montagem - ou uma ‘louca montagem’, como ele diz -, na qual cenas, anedotas, ‘momentos menores’ ou ‘vislumbres’ que aparecem e desaparecem de maneira repentina – e que normalmente ficariam de fora de uma tese -  vêm a tona e se sobrepõem – não há capítulos propriamente, mas fragmentos que, apesar de enumerados do 1 ao 19, podem ser lidos e combinados de muitas maneiras, num movimento de montar e desmontar, dobrar e desdobrar.”

A resenha pode ser lida aqui.

Outro livro excelente é Fragmentos Pós-modernos, de Paulo Bauer.

Fragmentos Pós-Modernos

Trechos:

“Lá se foi o tempo de se revelar – fragmento a fragmento – o puzzle da existência em qualquer nível: é a hora do mosaico tipo lego, em que a peça-fragmento a que por necessidade se unirá outra peça-fragmento, via acaso, via imaginário, criam a figura – em permanente devir – a que o antigo puzzle fazia estática, imutável, dotada de generalidade e coerção social. Por ser um mosaico em lego, que se constrói ainda com o imaginário, a transmitir uma linguagem sub/suprajacente ao texto, a provocar uma amplitude de pensamento livre das amarras de uma só textualização, muitos fragmentos pegarão de surpresa o leitor. Mas o efeito, inclusive estético, que se busca, quando obtido, certamente o recompensará.

(...)

Não há, na convicção do autor, outra maneira de coletar elementos/fragmentos teóricos para a construção de discursos – e quanto mais polifônicos melhor – que tratem da pós-modernidade para muito além das meras posições contra/a favor/mais ou menos com que muitos autores, mercê de um discurso unívoco, que parte do princípio de que se fala o que se sabe, obrigam-se a falar de um fenômeno do qual ainda muito pouco se sabe, como se sabido fosse.”

O livro pode ser lido aqui.

Até a próxima.

 

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