Historiografia pós-moderna: alguns exemplos

Reynaldo Carvalho

"Nenhuma superfície é virgem, tudo já nos chega áspero, descontínuo, desigual, marcado por algum acidente: o grão do papel, as manchas, a trama, o entrelaçado dos traços, os diagramas, as palavras."

Roland Barthes

 

1 - A historiografia pós-moderna, de D’Assunção Barros

O texto pode ser lido, na íntegra, aqui

Resumo: Neste artigo discute-se o conceito de Pós-Modernidade na sua aplicabilidade relativa à Historiografia, apresentando um panorama envolvendo as diversas posições dos historiadores com relação ao pós-modernismo historiográfico. Quais são as principais caraterísticas da historiografia pós-moderna, e que historiadores podemos trazer como exemplos possíveis de se enquadrarem nesta categoria? Qual o contexto de surgimento e atualização deste debate nas décadas recentes? O artigo procura situar estas questões diante de referências bibliográficas que se têm tornado já clássicas para o tema.

“Alguns exemplos de historiadores, nos quais desponta menos ou mais claramente a tendência pós-modernista, podem ser citados. Alain Corbin, com obras como O Território do Vazio: a praia e o imaginário ocidental pode ser talvez um bom exemplo. A si mesmo, ele define-se a partir de uma designação que se refere a um campo histórico, ou mais especificamente a um domínio temático: o da ‘história das sensibilidades’ – o que é adequado, no sentido de que em sua obra procura examinar as mudanças ou permanências nos modos de sentir. Os temas explorados por Corbin sinalizam o gosto pelo inesperado, pelo exótico, pela investigação daquilo que ainda não fora até então constituído como objeto por nenhum outro historiador. Essa perseguição da originalidade é um traço característico de Corbin, que elegeu entre seus temas de investigação uma História da Paisagem Sonora (Les cloches de la terre. Paysage sonore et culture sensible dans les campagnes au XIXe siècle), obra na qual afirma a pretensão de dar uma particular atenção ‘ao inatual, ao insólito, ao que é decretado irrisório (…) tentar um estudo da gênese da insignificância, depois da evolução e da difusão das formas da incompreensão’.

Alain Corbin

Tipicamente pós-moderna, por aceitar e buscar mais enfaticamente a intrusão da ficção para preenchimento de lacunas, parece ser a obra O mundo reencontrado de Louis-François Pinagot: no rastro de um desconhecido. Nela Corbin declara o desejo de investigar ‘a atonia de uma existência comum’, o que o levou a procurar obsessivamente, durante três anos, um indivíduo que não tivesse deixado nenhum vestígio no curso de sua existência, com o que pretendia ‘apoiar-se sobre o vazio e o silêncio a fim de aproximar um Jean Valjean que nunca teria roubado pão’. A técnica utilizada é por ele mesmo referida como emprestada do Cinema, e visou utilizar uma câmera subjetiva de modo a recriar ‘o possível e o provável, esboçar uma história virtual da paisagem, da sociedade habitual e dos ambientes’.

(…)

Enfim, fariam de Alain Corbin um provável candidato à classificação no âmbito da historiografia pós-moderna alguns aspectos como a opção pelos temas exóticos, pela viva reconstrução lacunar através de uma imaginação romanesca, pela incorporação do acaso como procedimento, pela pesquisa do anônimo desconhecido que se torna importante pela sua insignificância – mas não em uma perspectiva como a da Micro-História, que é a de utilizar esse anônimo ou o detalhe pouco percebido como caminho para chegar a uma questão mais ampla (…) em Corbin, o que se busca é o insignificante pelo prazer de investigar o insignificante. Estaria talvez aqui um bom exemplo de historiografia pós-moderna no que se refere a alguns aspectos que têm sido criticados pelos historiadores que ainda buscam o sentido na história, a ligação com contextos mais amplos, a problematização.

Richard Price

Richard Price, autor de um interessante livro sobre os Saramakas do Suriname, também pode ser associado à prática historiográfica pós-modernista, e é assim que Hobsbawm o apresenta na sua resenha ‘Pós-Modernismo na Floresta’, incluída na coletânea de ensaios Sobre a História. O interessante na obra Alibi’s World, de Richard Price, é a originalíssima experimentação em torno de um novo padrão de análise das fontes, e de exposição dos resultados, que poderemos denominar polifonia. O livro busca examinar as sociedades quilombolas do Suriname nos séculos XVIII e XIX. Para compreender a história dos saramakas – que é como no Suriname eram chamados os quilombolas que construíram sociedades às margens do sistema escravista – Richard Price procura apreender estas sociedades através da vida e contexto de um chefe quilombola chamado Alabi (1740-1820). Mas o que importa é o método proposto. Price procura construir a sua polifonia de vozes trazendo, para além da sua própria voz de autor, as vozes dos vários atores sociais que são entrevistos nas fontes. Cada uma destas vozes é identificada no texto escrito por Richard Price com uma fonte tipográfica distinta, sendo este o singular recurso visual disponibilizado para o leitor, de modo a que este não se perca naquilo a que Eric Hobsbawm parece entrever como uma espécie de floresta de vozes construída por este audacioso ensaio. A experiência polifônica de Richard Price, embora criticada na sua realização final por Hobsbawm, é certamente material de extremo interesse para se pensar as futuras possibilidades da História no que se refere a novos modos de lidar com as fontes e a novos modos de expor o texto.”

 

2 - Em 1926: vivendo no limite do tempo, de Gumbrecht  e  Desconstruindo a história, de Munslow

 As resenhas de Munís Pedro podem ser lidas aqui  e aqui.

“Qual é o sentido de estudarmos História? Por que esta área do conhecimento privilegia determinadas datas, contextos e acontecimentos em detrimento de outros? Por exemplo, por que a historiografia brasileira produziu tantos livros dando destaque a certos anos como os de 1822 e 1964? E, indo mais a fundo, que importância tem o aluno de História saber sobre o triunvirato da antiga república romana ou sobre as guerras médicas? Mudará sua vida acaso ele saiba como se dava a divisão de classes durante a Idade Média? De maneira direta ou indireta, um dos livros de Gumbrecht inevitavelmente suscita indagações como estas. O autor escolheu abordar a simultaneidade histórica de uma maneira muito particular. Produziu um livro sobre o ano de 1926. Mas, de acordo com a historiografia em geral, o que diabos aconteceu de tão importante neste ano? Nada.

Grumbrecht

Alemão, que reside há tempos nos EUA onde dá aulas na Universidade de Stanford, Hans Ulrich Gumbrecht é um teórico literário que se inspira em historiadores como Reinhart Koselleck, Hayden White e Paul Zumthor. Sua postura pós-moderna é referente à tentativa de não pensar a História como um movimento homogêneo e totalizante, à argumentação em favor de uma concepção ‘fraca’ de subjetividade e a seu fascínio por superfícies materiais. A obra Em 1926: vivendo no limite do tempo é sem dúvidas um livro de história. Só que incomum. Mas o inusitado não está somente em tratar de um ano que pouco importa segundo nossos marcos cronológicos. É, também, um livro de história não linear e não sequencial – pelo menos não do modo como estamos acostumados. O enredo fala sobre 1926, mas não possui começo, meio e fim. Aliás, ousaria dizer que só tem meio.”

Munslow

“Boa parte do público acadêmico iguala a desconstrução à destruição, entendendo-a como uma característica ou sintoma do niilismo intelectual, esse mal-estar da pós-modernidade; ou, melhor dizendo, esse não estar da pós-modernidade, já que só declara inexistências, ausências e impossibilidades. No entanto, embora possa ser feito um paralelo discutível com um tipo de niilismo, essa compreensão é enganosa e às vezes rasteira. Desconstrução não é destruição, tampouco ‘fim da história’. E também não significa que a escrita da história não possa ser realizada para nos informar sobre o passado e o mundo. Em Munslow, a desconstrução é uma maneira de refletir sobre o trabalho historiográfico, sobre o processo de transformação de evidências e informações do passado em história, questionando além do que o método histórico, também a capacidade dos historiadores reconstruírem e explicarem objetivamente o passado inferindo fatos das evidências.

(...)

A ‘consciência desconstrutiva’ não só define a história como uma narrativa escrita, produto fabricado pelos historiadores, mas também radicaliza expressando que a narrativa proporciona o modelo textual para o próprio passado. Isto é, a história é uma invenção literária que o presente impõe ao passado através dos recursos técnicos e literários que dispõe. Por isso, cabe aqui atentar-se para o conceito de narrativa que, segundo Munslow, é uma forma de posicionamento dos conteúdos explicativos como eventos em uma ordem sequencial, de modo semelhante quando contamos um acontecimento a alguém. Para o autor não interessa os aparatos técnicos que a história pega emprestado das ciências sociais ou a capacidade de explicação do passado através da narrativa, nem ‘o passado tal qual aconteceu’, mas tão somente a realidade do passado como um relato escrito. Ao pensar que frequentemente os historiadores estão lendo uns aos outros, chega à conclusão de que ‘a história não é o estudo das mudanças através do tempo por si, mas o estudo das informações produzidas pelos historiadores ao se lançarem nessa tarefa’. Neste sentido, o trabalho do historiador numa era pós-moderna, seria não o de começar pelo passado, mas pelas representações do passado, tendo em vista que somente assim seria desafiada ‘a crença de que há uma verdade sobre a realidade do passado a ser descoberta e possível de ser precisamente representada’”.

Até a próxima.

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