O remix midiático de Cowboy Bebop e Samurai Champloo

Reynaldo Carvalho

"Nenhuma superfície é virgem, tudo já nos chega áspero, descontínuo, desigual, marcado por algum acidente: o grão do papel, as manchas, a trama, o entrelaçado dos traços, os diagramas, as palavras."

Roland Barthes

 

Um ótimo texto de Roberta Regalcce de Almeida Santos: “O remix midiático das séries de televisão Cowboy Bebop e Samurai Champloo”.(trecho adaptado).

"As remixagens, em sua lógica de apropriações de diversas fontes conjugadas dentro de um mesmo produto, caracterizam-se pelo aspecto de filtragem e de deslocamento por entre contextos, estilos e autorias diversas. Em síntese, as suas características são:

1. O remix é feito por quem está imerso no universo da cultura Pop e dialoga diretamente com seus pares;        

2. Seu processo criativo opera na lógica de seleção, apropriação de amostras, desconstrução e rearranjos desses elementos em outro(s) contexto(s), corpo(s) e forma(s);

3. Essas amostras ou samplers funcionam como fractais, pois um pedaço ou trecho de um produto cultural utilizado carrega consigo uma carga simbólica que quando observada remete o leitor à sua origem pregressa, isto é, a amostra ainda que diluída em outras, contém e nos remete à referência inicial do filme, da música, do estilo, do programa de TV etc.;

4. O autor de remix não apaga os vestígios de onde tirou seus samplers. Ele convida o público a reconhecer e acessar as suas fontes. São planos de navegação de um aficionado (o autor) por cultura pop a outro (seu receptor);

5. A assinatura ou estilo do autor de remix aparece em sua capacidade inventiva de mesclar elementos de fontes diversas e fazer com que a obra adquira uma autonomia própria. Não é uma questão de rivalizar com as fontes originais, mas de preservar em sua composição, princípios organizativos coerentes que não agridem seu usuário. Em outras palavras, um filme pontuado pelo remix conta uma história própria, dentro da dinâmica usual que compõe um enredo de um filme, ainda que imerso nos samplers de diferentes fontes. Quentin Tarantino é um cineasta especializado em remix, como pode ser observado em Kill Bill vol. I e vol. II(2003);

6. A efemeridade sempre foi a tônica do remix na cultura DJ e a mesma pode ser vista em outros nichos midiáticos. São obras de arte ou produtos que não raramente simbolizam uma época. Mas não se submetem a esta. O autor de remix é consciente disso e se vale das temporalidades que cria para compor e tecer novos arranjos;

7. No remix, delimitações de gêneros e estilos são borrados. Há uma dificuldade para estabelecer inclusive rótulos que consigam limitá-las a um campo ou área de atuação determinados. A sua dinâmica transita entre formatos e padrões erigidos e impostos ao longo do tempo desestabilizando-os.

A hipótese principal (...) é de que a marca do autor de remix aparece de fato em sua capacidade e habilidade de saber misturar, samplear, redefinir e ressignificar, conjugando contextos diversos em um corpo que possa adquirir qualquer forma ao transferir seu conteúdo sincrético, tornando a obra remixada uma ponte entre várias culturas, criando uma rede simbólica de interação e interconexão com outras representações. Neste sentido, a leitura de uma única obra, permite trafegar por outras obras, revisitando-as, reconhecendo-as, recontando-as, em um jogo sígnico que redimensiona as fronteiras. O remix parece tender a uma nova forma de relações entre autor e obra, entre produto consumido e obras originais, deslizando essas funções e definições em uma rede de interfaces que parece desembocar em um processo no qual não se sabe onde começa uma e termina outra. São fronteiras que surgem e aparecem borradas, diluídas. Para uns esse é o cenário de uma crise, seja ela de direitos autorais ou de identidade. Porém, para outros, (...), é um cenário perfeito para: selecionar, apropriar, recriar, recontar, ressignificar e enfim remixar.

Outro ponto importante é o caráter de jogo, brincadeira e ironia vinculada às remixagens. Esse aspecto revela o prazer do autor/fã que se diverte ao contar sua história tramando-a com outras, as quais lhe são importantes e merecem serem destacadas, homenageadas e citadas. Assim, o remix é uma prática que pode estar associada ao prazer do consumo midiático e de uma consequente reutilização. O objeto simbólico midiático torna-se um produto manipulável, mostrando que aquilo que é admirado tende a ser reciclado, isto é, coletado, separado, triturado e reformado para outros usos, em outros corpos.

 Portanto, o jogo da remixagem acontece quando uma obra aponta para suas diferentes fontes, como se esse produto remixado fosse um mapa cheio de pistas. Assim, mais importante do que o sentido da obra são as outras obras, contextos e momentos históricos com os quais está dialogando, mostrando suas referências e seus percursos depositados e linkados em camadas (layers). Ironicamente, as questões a respeito do futuro do remix só podem ser respondidas com outros remixes, em contínuo."

O texto pode ser lido, na íntegra, aqui: http://www.bocc.ubi.pt/pag/almeida-roberta-o-remix-mediatico-das-series-de-televisao.pdf

Até a próxima.

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