Sobre gênios não originais, paródias e um mashup

Reynaldo Carvalho

"Nenhuma superfície é virgem, tudo já nos chega áspero, descontínuo, desigual, marcado por algum acidente: o grão do papel, as manchas, a trama, o entrelaçado dos traços, os diagramas, as palavras."

Roland Barthes

Gênio Não Original

Livro: O Gênio Não Original: poesia por outros meios no novo século

De Marjorie Perloff

Editora UFMG (Coleção Humanitas), 314 páginas

“Em O Gênio Não Original, Perloff reflete sobre alguns aspectos específicos – citação, recontextualização, reciclagem – de parte da boa literatura poética produzida ao longo do século 20 e neste século 21, à qual chama de ‘não original’. Com isso, a obra de Marjorie fomenta um novo olhar para as ambições e potencialidades da escrita poética moderna e contemporânea – e pavimenta novos caminhos para o entendimento da poesia a partir do século 21, em especial no que diz respeito à influência de novos dispositivos, como a internet”.

A apresentação do livro está em https://www.ufmg.br/boletim/bol1842/7.shtml e uma ótima resenha do livro de Perloff pode ser lida, na íntegra, em https://escamandro.wordpress.com/2013/10/10/marjorie-perloff-e-o-genio-nao-original/

Nela, Adriano Scandolara comenta:

“Se eu pudesse apontar algo de que senti falta no livro (e eu já apontei isso para a própria Perloff, inclusive, via facebook) seria um elo entre essa poética conceitual e apropriativa não original moderna/contemporânea e os possíveis precedentes dela nos séculos passados, anteriores ao XIX, XX e XXI. Acredito que poderíamos encontrar um antecedente para o livro das Passagens de Benjamin, na obra do século XVII A Anatomia da Melancolia, de Robert Burton (que o nosso colega escamandrista Guilherme Gontijo Flores traduziu integralmente e publicou pela editora da UFPR), também composta como um imenso patchwork de citações eruditas de obras de teologia, geografia, história e, claro, poesia, ao mesmo tempo em que a prática eliotiana do poema citacional não só já era realizada na antiguidade como era um gênero literário à parte, chamado de cento (centão), cujo exemplo mais ilustre é o Cento Nupcialis, de Ausônio (310-395), que compõe um poema erótico-pornográfico a partir de versos extraídos inteiramente de Virgílio. Mas, enfim, essas comparações e considerações ficam para um estudo posterior. De qualquer modo, como é, o livro de Perloff representa uma belíssima introdução para um assunto complicado e polêmico, na medida em que alguma coisa ainda consegue levantar poeira e polêmica no mundo da poesia contemporânea”.

Um excelente texto de Nelson de Oliveira complementa o assunto:

A Mona Lisa de Marcel Duchamp

A Mona Lisa de Marcel Duchamp: “L.H.O.O.Q”

“No âmbito da criação artística e literária, adoro colagens, citações, imitações, reciclagens, remix, incorporações, duplicações, samplers, apropriações e cópias. Adoro sátiras e farsas. Adoro paródias, pastiches e, é claro, plágios.

Em 1992, o escritor João Silvério Trevisan foi denunciado e julgado como plagiário. A denúncia partiu de alguém muito próximo do autor, um rapaz chamado Alberto Orozimbo, que alertou: ‘O romancezinho que vocês acabaram de ler não passa de um grosseiro pastiche construído com toda a espécie de plágio e adulteração de outras obras.’

O romance em questão é O livro do avesso, publicado nesse mesmo ano, pela paulistana Ars Poetica. Dividido em duas partes espelhadas, seu protagonista é o próprio Alberto Orozimbo, um publicitário-poeta insatisfeito e azarado, que na primeira parte acaba se envolvendo com marginais, policiais corruptos, loucos, vagabundos e terroristas.

Na segunda parte — O avesso do livro —, durante uma assembleia tensa fica provado que Trevisan, o Grande Plagiador, construiu sua saborosa narrativa policial com cenas, situações e reflexões tiradas de Chesterton, Hitchcock, Borges, Mario Faustino, Fritz Lang e muitos outros escritores, dramaturgos e cineastas. Por que razão ele fez isso?

A justificativa está na orelha do livro: ‘Num mundo em esgotamento, onde se vive a permanente sensação de que tudo ficou velho, a reciclagem não é mera solução resignada deste final de século. Reciclar, na verdade, tornou-se um estilo. No âmbito da criação artística e da poesia, reciclar apresenta-se como um verdadeiro modo de ser.’

Essa é a justificativa geral do modernismo e do pós-modernismo para as paródias, os pastiches e os plágios realizados nos últimos cem anos na literatura e nas artes.

Uma década antes de O livro do avesso, a intertextualidade também movimentou boa parte de Lanark, o fabuloso romance do escocês Alasdair Gray. No final dessa obra-prima publicada em 1981, ocorre um divertido debate entre o protagonista indignado e um autor resignado. Detalhe: totalmente apartado de Alasdair Gray, esse autor é apenas mais um personagem da narrativa, uma interface entre o autor empírico e o livro que está sendo escrito. A certa altura ele explica ao protagonista:

‘Sua sobrevivência como personagem e a minha como autor dependem de atrairmos uma alma viva para dentro do nosso mundo impresso e prendê-la aqui por tempo suficiente para roubar a energia imaginativa que nos dá vida. Para enfeitiçar esse estranho, ando fazendo coisas abomináveis. Estou prostituindo minhas lembranças mais sagradas, transformando-as em palavras e frases as mais comuns possíveis. Quando preciso de frases ou ideias de mais impacto, roubo-as de outros escritores, geralmente distorcendo-as para mesclá-las às minhas próprias.’

Em seguida é apresentado ao leitor um esclarecedor Índice de plágios, indicando a origem da maioria das cenas, situações e reflexões copiadas de outras obras. Um importante aviso precede esse índice:

‘Três são os tipos de roubo literário neste livro: plágio em bloco, em que o trabalho de outra pessoa é impresso como unidade tipográfica distinta; plágio embutido, em que palavras roubadas são ocultas no corpo da narrativa; e plágio difuso, em que cenários, personagens ou ideias são roubados sem as palavras originais que os descreviam. Para economizar espaço, esses serão doravante referidos como Blopag, Emplag e Diplag.’

Visito minhas estantes em busca de outros exemplos de obras-colagens e encontro um magnífico artefato antropófago: a trilogia No coração dos boatos, de Uilcon Pereira, publicada no início dos anos 80. Movida pelo mais refinado nonsense, essa satírica máquina-de-plagiar interroga autores e autoridades, reciclando séculos de tradição literária.

Mais adiante, esbarro nos livros explosivos do terrorista Glauco Mattoso (‘o plágio é mais honesto que o original, ladrão que rouba ladrão tem perdão perpétuo’, Artefacto). Ao seu lado, respeitando mais a ordem afetiva do que a ordem alfabética, encontro os livros não menos explosivos do não menos terrorista Sebastião Nunes e, em seguida, duas coletâneas do poeta-performer português Alberto Pimenta. Na poesia recente de língua portuguesa, esses são os três apocalípticos cavaleiros da estética da provocaçam, canibais oswaldianos que não hesitaram em expropriar da falida autoridade intelectual uns bons nacos de carne.

Em outra prateleira encontro o best-seller Boca do Inferno, de Ana Miranda, lançado em 1989. Esse romance historiográfico incorpora parágrafos do padre Antônio Vieira e poemas de Gregório de Matos, sem avisar o leitor. No acalorado debate veiculado pela imprensa, reunindo jornalistas e críticos literários, foram muito repetidas as palavras colagem, apropriação, citação, intertexto, pastiche e plágio (esta com bastante cautela).

Quanto ao melhor nome pra essa transgressão, dá pra notar que o consenso ainda está longe. O fato indiscutível é que a livre manipulação de textos alheios, sem a autorização dos autores ou a indicação da verdadeira paternidade, é um procedimento comum na arte e na literatura. Basta digitar em seu buscador preferido as frases ‘plágio na literatura brasileira’ e ‘plágio na literatura mundial’, por exemplo, que surgirão dezenas de outras obras, além das citadas acima.

Como a teoria literária tem lidado com essa questão? Da maneira mais generosa possível: legitimando a transgressão e as obras.”

O texto pode ser lido, na íntegra, aqui: http://revistapausa.blogspot.com.br/2015/05/parodia-pastiche-plagio-etc.html

Para terminar, apresento esse mashup fantástico do DJ Schmolli; na Wikipédia pode-se ler : “um mashup é uma composição criada a partir da mistura de duas ou mais canções preexistentes, normalmente pela transposição do vocal de uma canção em cima do instrumental de outra, de forma a se combinarem”.

Até a próxima.

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