Em Ubatuba – Ciência Aberta por um outro desenvolvimento

Por Bia Martins

Promover a articulação entre diversos tipos de conhecimento, incentivando o diálogo entre a ciência acadêmica e outros saberes, tradicionais e informais, com o objetivo de propor caminhos para o desenvolvimento local de forma democrática e sustentável. Esta é, em resumo, a proposta da plataforma Ciência Aberta Ubatuba.

O projeto, que está em fase de conclusão após dois anos intensos de pesquisa, é coordenado pelo Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia, com recursos da OCSDnet e apoio do CNPq.  Conta ainda com a participação do Centro de Tecnologia Acadêmica do IF/UFRGS, o apoio do núcleo Ubalab, do festival Tropixel, da rádio cultural comunitária Gaivota FM e do Pimentalab/Unifesp.

Ubatuba está localizada litoral norte paulista e tem uma alta proporção de seu território em área preservada da Mata Atlântica. Ao mesmo tempo, convive atualmente com os riscos socioambientais da exploração do pré-sal e do turismo predatório na região, que atingem principalmente as comunidades tradicionais, como quilombolas, indígenas e caiçaras. [Na foto acima, o registro da fala de Felipe Fonseca, com Sarita Albagli e Henrique Parra na plateia, durante o encontro do projeto realizado em 17/03/2017.]

Embora haja no local uma intensa atividade de produção de conhecimento nas mais diversas áreas (biologia marinha, oceonografia, etnografia, economia pesqueira, agricultura familiar etc),  os resultados dessas pesquisas têm sido pouco compartilhados com a população. Muitas vezes os cientistas não têm vinculação com o município, e os que têm nem sempre publicam suas pesquisas.

A cidade, por outro lado, é palco de várias iniciativas inovadoras, como de economia solidária e permacultura, que revelam seu potencial para o desenvolvimento sustentável. À frente do laboratório experimental Ubalab, de educação aberta, inovação cidadã e tecnologias livres, o ativista e pesquisador Felipe Fonseca atua como principal articulador do contato e interação entre diversos atores locais na perspectiva de criar sinergias para a produção de conhecimento sobre o território de forma colaborativa.

No encontro Ciência Aberta para Outro Desenvolvimento, realizado no último dia 17 de março, foram apresentados os resultados do projeto de pesquisa e as perspectivas para sua continuidade. 

A professora Sarita Albagli, do Ibict, coordenadora do projeto, destacou que nos dois anos de pesquisa foram realizadas diversas atividades com o objetivo de sensibilizar e aproximar os diferentes atores cognitivos e políticos da região, na forma de debates, seminários, oficinas, programas de rádio, blog, wiki etc . Segundo ela, um dos desafios encontrados nesse processo foi o de facilitar a apropriação social do conhecimento produzido, muitas vezes cifrado na linguagem técnica ou acadêmica, para que pudesse ser compreendido pela população em geral.

Já o professor Henrique Parra, da Unifesp, que acompanha o Ciência Aberta Ubatuba em sua pesquisa de pós-doc, destacou as questões norteadoras do projeto, quais sejam: que tipo de conhecimento, qual modelo de desenvolvimento e para quem? Algo que só pode ser respondido a partir do diálogo entre os diversos atores envolvidos, através de formas colaborativas e participativas de produção do conhecimento que estão sendo experimentadas no projeto.

O pesquisador explicou também que o método de trabalho tem sido a pesquisa-ação que permite a percepção direta de como a informação circula na região e a identificação dos problemas cotidianos e, portanto, daquilo que é mais urgente no território. Ele ressaltou ainda a importância de que a apropriação de informação se transforme em ação efetiva. Um primeiro passo, nesse sentido, é reunir todos os dados para possibilitar um debate democrático para a definição da futura ocupação do território.

Nesse sentido, busca-se agora um arranjo institucional que ofereça infraestrutura e recursos necessários para que a pesquisa avance no desenvolvimento da plataforma Linda-Geo – Litoral Norte Dados Abertos, a fim de articular as diferentes informações, oficiais e comunitárias, na forma de um mapa colaborativo. O conceito é que todo o projeto, de sua concepção, desenvolvimento à alimentação, seja participativo.  Mais uma vez, entre os principais desafios está a utilização de uma linguagem que possa de fato ser inteligível para toda a população, a fim de que possibilite a geração de um debate qualificado e democrático sobre o desenvolvimento que se quer para a cidade.  

O potencial de efetivamente articular os diversos saberes e atores cognitivos em uma nova forma de produção de conhecimento colaborativa e comum faz do projeto Ciência Aberta Ubatuba uma iniciativa de alta relevância por seu potencial demonstrativo a nível internacional, já que se trata de uma experiência inovadora com base nos princípios da Ciência Aberta.

Durante o encontro foi lançada a Incubadora Colaborativa Inc.ubalab, que recebeu na ocasião várias adesões de iniciativas colaborativas e/ou inovadoras sustentáveis da região. Clique aqui para saber mais.

Saiba mais sobre o projeto Ciência Aberta Ubatuba.

Dia 6 de abril, no Rio de Janeiro, o evento "Da Ciência Aberta à Ciência Comum: por um outro desenvolvimento" abordará a experiência do projeto com debatedores convidados. Para participar, inscreva-se aqui.

 

 

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