Por tecnologias convivialistas – sobre hackerspaces e tecnologias livres

Conviviações - Tecnologias livres e Hackerspaces

Por Bia Martins

Num mundo em que a tecnologia é vista como uma grande caixa-preta, indecifrável e perigosa, com grandes plataformas que monitoram e processam nossos dados pessoais sem sabermos bem como ou para quê, como pensar em tecnologias convivialistas?

Que outra forma de pensar e produzir a tecnologia pode nos fazer vislumbrar parcerias, colaborações, troca de conhecimento e busca por soluções coletivas para problemas comuns?

Esse foi o mote do encontro Conviviações "Por tecnologias convivialistas – sobre hackerspaces e tecnologias livres" realizado dia 13 de abril com a participação de Ka Menezes, professora da UFBA e integrante do Raul Hacker Club, em Salvador (BA), e Leonardo Foletto, jornalista, professor e pesquisador de tecnologia e ativismo, que desde 2008 está à frente do BaixaCultura espaço online de cultura livre e (contra) cultura digital. Os dois, que são referência em cultura hacker e cultura livre, já foram entrevistados aqui pelo Em Rede.

Eu tive o prazer de mediar a conversa, que teve apoio do Ateliê de Humanidades, com o objetivo de fazer algumas aproximações entre as propostas do Segundo Manifesto Convivialista – Por um mundo pós-neoliberal e do movimento em torno das tecnologias livres.

O manifesto toca en passant no tema da tecnologia como parte do diagnóstico do esgotamento do modelo neoliberal, alertando para o poder das grandes corporações tecnológicas, conhecidas como GAFAM (Google, Amazon, Facebook, Apple e Microsoft), que prosperaram sem se submeter a qualquer regulação democrática e lucram com o processamento de dados pessoais de forma não transparente. Ao mesmo tempo, aponta para iniciativas colaborativas como a criação da Wikipédia e do sistema operacional Linux, que já nos mostraram o potencial da inovação baseada no livre compartilhamento de práticas e saberes.

Então, de que maneira podemos pensar em tecnologias que não sejam caixas-pretas, verdadeiros pacotes fechados jogados de cima para baixo, mas, ao contrário, tecnologias conhecidas desde dentro, pensadas e construídas coletivamente, que possam ser transformadas para atender às necessidades e especificidades de diferentes comunidades?

A conversa foi muito rica, passando por diversos temas, mesclando reflexões concentuais com o relato de algumas experiências coletivas de experimentação tecnológica. Vou tentar aqui fazer um pequeno resumo. Assim, quem tiver interesse pode assistir à conversa na íntegra no vídeo acima.

Em sua primeira intervenção, para introduzir o tema, Leo Foletto contou um pouco da história do movimento software livre e da criação do conceito de copyleft, o grande hack de Richard Stallman no direito autoral. Aproveitou para dar um palinha do conteúdo do livro que lançou recentemente, “A Cultura é Livre: uma história da resistência antipropriedade”, falando sobre como a ideia artificial da propriedade intelectual foi construída e como vem sendo desafiada por diversos movimentos como a Cultura Livre e a Ciência Aberta, entre outros.

Em seguida, Ka Menezes falou sobre o movimento hackerspace, que surgiu na Europa, foi para os Estados Unidos e chegou no Brasil, adquirindo características próprias de um país marcado por escassez e precariedade. O primeiro hackerspace que ela identificou em sua pesquisa foi o Bailux, em Arraial da Ajuda (BA), que ainda nos anos 2000 percebeu a necessidade de criar um laboratório de experimentação tecnológica para lidar com o turismo predatório na região. Na sua visão, os hackerspaces já eram espaços convivialistas, mesmo antes de tomarem conhecimento desse conceito, na medida em que são espaços de convivência entre diferentes em busca da construção de um bem comum.

Outro ponto abordado na conversa foi o da tecnodiversidade e cosmotécnica, conceitos trazidos por Yuk Hui para pensar na tecnologia produzida em diferentes territórios e a partir de suas referências culturais. Leo lembrou então da experiência riquíssima dos Pontos de Cultura, especialmente na gestão de Gilberto Gil à frente do Ministério de Cultura, quando centenas de comunidades espalhadas pelos mais diversos cantos do país puderam desenvolver projetos articulando a cultura local com a tecnologia digital, com base no software livre e nas licenças Creative Commons. 

E como pensar outras formas de inovação que não passem pela reprodução do paradigma neoliberal? Ka lembrou, então, de como os hackerspaces brasileiros contribuíram na produção de EPIs para fazer frente à escassez desses recursos na primeira fase da pandemia da Covid-19 no país. E de como, em diferentes contextos, os brasileiros criam gambiarras para contornar a precariedade tecnológica.

Falamos ainda das barreiras e brechas que existem entre as instituições educacionais formais e esses espaços alternativos de produção de conhecimento, lembrando como, apesar dos preconceitos de parte da comunidade acadêmica, existe forte relação entre hackerspaces e universidade.

Bom, como escrevi no ínicio, a conversa passou por diversos assuntos relacionados às tecnologias, conhecimento e cultura livres, e certamente poderia se alongar por muito mais tempo. Fica então o registro do encontro e a certeza de que, por sua relevância, esse é um tema que merece ser revisitado e aprofundado.

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