Banco de Tempo – onde as horas de serviço são a moeda de troca

Por Bia Martins

O Banco de Tempo não é uma ideia nova, mas ganhou força com as redes de comunicação. Ainda no século XIX, um dos pioneiros em pensar uma experiência em que as pessoas trocassem horas de trabalho foi o anarquista norte-americano Josiah Warren, com a sua Cincinnati Time Store. Na loja, que funcionou de 1827 a 1830, era possível efetuar trocas através de notas baseadas em horas de trabalho.

A iniciativa está baseada no conceito de moeda social que por sua vez faz parte da chamada economia solidária. Uma moeda social é um tipo de moeda paralela administrada por seus próprios usuários em um regime de confiança mútua. Pode ser vista como uma prática de reinvenção da economia na medida em que estabelece um sistema de trocas para além das relações de mercado do sistema capitalista.

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A proposta do Banco de Tempo é simples e cheia de possibilidades: eu ofereço meu tempo de trabalho, em algo que sou especialista ou sei fazer bem, e em troca recebo horas de trabalho de outras pessoas em serviços que necessito. O dinheiro não entra na equação, a “moeda” nesse caso é o tempo gasto na realização do trabalho e todas as horas de trabalho têm o mesmo valor.

Quando as pessoas envolvidas na transação moram próximas, as trocas podem incluir atividades presenciais como limpeza e consertos na casa; acompanhamento de crianças ou idosos; cuidados de plantas e animais etc. A vantagem da proximidade é que nesse caso também são exercitadas a convivência e a solidariedade, valores que têm perdido espaço na correria dos tempos atuais.

Com a rede, o leque de atividades oferecidas se ampliou incrivelmente. Desde aulas dos mais diversos tipos; serviços variados como redação ou revisão de textos; criação de vídeos ou sites; consultorias em várias áreas; dicas de beleza ou de viagem etc etc. Onde houver alguém que ofereça um serviço e outra pessoa que precise dele, uma transação pode ser concretizada. Mesmo sem a proximidade geográfica, um tipo de vínculo se estabelece entre os participantes a partir do interesse mútuo em buscar novas formas de suprir suas necessidades.

A sugestão para este post me foi dada pelo João Neumann Neto, em um comentário no site, com a indicação do Banco de Tempo de Florianópolis (BTF) como uma experiência P2P de fato colaborativa. O BTF se organiza através de um grupo público do Facebook, onde é possível oferecer serviços e contatar pessoas. A motivação para a criação do grupo foi a vontade de inverter o modelo em que, muitas vezes, trabalha-se no que não gosta para conseguir pagar as contas que não param de chegar. Em vez disso, investir em fazer o que gosta para gerar valor e conexão com outras pessoas. O grupo tem ainda a proposta de direcionar algumas horas de serviço para projetos sociais como hortas comunitárias, por exemplo.

Confira o vídeo explicativo deles:

Comecei a explorar mais o assunto e vi que existem iniciativas de abrangência nacional. A Bliive é uma plataforma que coloca em contato pessoas por todo o país que queiram trocar atividades. Está organizada em diferentes categorias de serviços (Saúde & Bem-Estar; Artes; Idiomas e Viagens; Casa &Serviços etc.) e permite que você explore o que existe de oferta perto de você, facilitando uma interação mais face a face para quem preferir. Outro exemplo é a TimerRepublik, uma plataforma internacional que também está por aqui. A vantagem neste caso é a facilidade de intercâmbio com pessoas de outros países e outras culturas, o que abre outra gama de possibilidades de troca ainda mais diversificada.

Esses são só alguns exemplos de uma ideia que está se espalhando pelo país e pelo mundo. Uma proposta verdadeiramente colaborativa e entre pares que tem tudo para crescer como alternativa concreta ao modelo de consumo capitalista que se mostra cada vez mais insustentável.

E você, conhece alguma iniciativa de Banco de Tempo além dessas? Conta pra gente ;)

Comentários

Não sei se é do conhecimento do grupo, há um banco comunitário com moeda Social na periferia de Fortaleza ( Bairro Palmeiras). Aqui o link de uma matéria e um vídeo sobre o Banco Palmas. https://papodehomem.com.br/banco-palmas-o-primeiro-e-maior-banco-popular-comunitario-do-brasil/

Olá Roberto, Sim, já ouvi falar do Banco de Palmas, mas não conhecia os detalhes. Valeu a dica!

Alguém sabe tem em São Paulo? Grata.

Olá Rubia, Não conhecemos um banco de tempo específico para São Paulo. Mas o que citamos, Bliive e TimerRepublik, em tese têm abrangência nacional.

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