Gig Economy: a glamorização do trabalho precário

 

Por Matheus Queiroz, publicada originalmente em:   Co.cada

 

Para muitas pessoas a Gig Economy significa flexibilidade e autonomia, para outras precarização e insegurança. Avanço ou retrocesso, o fato é que a Economia dos Bicos, caracterizada pela oferta de serviços através de plataformas digitais, não para de crescer. Diariamente uma multidão de pessoas participa de uma grande disputa digital pelo próximo trabalho informal.

Mesmo quem nunca usou os serviços das plataformas, certamente já ouviu falar de companhias como Uber, Deliveroo, GetNinjas e 99Designs. De um modo geral, o que elas oferecem são serviços sob demanda, executados por trabalhadores temporários, sem vínculos com o contratante e nem com a plataforma que faz a intermediação da contratação.

Os trabalhadores passam a ser então,como define a Uber em seu Termo de Uso, “prestadores terceiros independentes”.

Essa é uma característica central da economia dos bicos, as empresas não se responsabilizam nem pelo serviço e muito menos pelo trabal…(ops) “prestador terceiro independente”. Assumem o papel de intermediários, mas com um marketing bem sedutor: a gigante da hospedagem que não possui hotéis ou a maior empresa de transportes que não possui carros.

Empresas como essas estão crescendo tanto e se tornando tão poderosas que muitos especialistas em trabalho na economia digital, como Albert Cañigueral, alertam para o risco do surgimento de uma espécie de “feudalismo digital”. Se no período medieval possuir terras significava riqueza e poder, hoje o poder reside na propriedade das plataformas e dos dados. E não é difícil perceber quem serão os senhores feudais e quem serão os servos nesse novo capítulo da história.

Pode ser até que essa seja uma análise pessimista e exagerada, afinal de contas a imagem que temos do feudalismo não é lá muito positiva e não é possível que algo tão ruim se repita. Bom, talvez tivéssemos uma impressão melhor se na Idade Média já existissem o marketing e o lobby que Uber e Airbnb sabem utilizar tão bem. Então circulariam pelo feudos anúncios apresentando o incrível case do senhor feudal mais poderoso e produtivo da Europa medieval que, graças ao seu mindset empreendedor, alcançou o sucesso, virou um unicórnio e produz toneladas de grãos sem nunca ter puxado um arado. Apenas conectando os camponeses à terra.

A Gig Economy é um Meme?

Duarante o Colaboramerica 2017, numa palestra sobre o Futuro da Democracia, Audrey Tang 唐鳳, ministra de Assuntos Digitais de Taiwan, classificou a Uber como um grande meme. Não sei se em Taiwan existe a palavra “pegadinha”, mas talvez a Audrey tenha tentado passar essa ideia ao fazer a comparação.

Em alguma medida, podemos dizer que a Economia dos Bicos, tal qual a Uber, seria como o meme da expectativa x realidade.

Expectativa: “Meu pai teve um emprego na vida, eu já tive seis, meus filhos terão seis ao mesmo tempo”. Robin Chase, criador da Zipcar.

Realidade: “A decisão foi tomada no desespero mesmo. Tendo que pagar pensão [alimentícia], eu não tinha outra fonte de renda. O problema é você não ter garantia nenhuma. Hoje você tem, amanhã, quem sabe?” Carlos Junho, prestador terceiro independente da Uber.

A distância entre expectativa e realidade vai ser determinada pela possibilidade de escolha que cada um possui. Atualmente os trabalhadores autônomos (freelancers)representam 34% da força de trabalho nos EUA. Em 2020 serão 43%. Em 2016, essa porcentagem significava 68 milhões de pessoas, segundo levantamento feito pela Mckinsey. Somando-se Europa e Estados Unidos o número chega a 162 milhões de pessoas classificadas como freelancers.

Para um determinado grupo de pessoas, que possuem um alto nível de formação e uma boa rede de relacionamentos esse novo cenário traz possibilidades positivas. Criam um caminho que possibilita aumentar a renda de quem busca formas flexíveis de trabalho e participa das plataformas para amenizar a imprevisibilidade de renda.

Em 2016, a Emergent Research entrevistou nos EUA pouco mais 6 mil profissionais que prestam serviços via plataformas digitais como Amazon Mechanical Turk, Lyft, TaskRabbit e Upwork. 67% dos entrevistados afirmaram estar satisfeitos com o modelo de trabalho sob demanda da Economia dos Bicos. Mas qual o perfil desses entrevistados?

Homem, branco, com um nível de escolaridade de médio para alto, que dedicava apenas 11 horas semanais ao trabalho via plataformas.

- 41% possuem emprego formal;

- apenas 8% possuíam baixa escolaridade;

- 37% tinham um negócio próprio;

- 59% são homens;

- 64% são brancos.

Muitos desses trabalhadores optaram por jornadas de trabalho flexíveis, com mais autonomia e menos monotonia, além do direito de ser seu próprio chefe. E isso é positivo. Entretanto, para alguns milhões de trabalhadores não há escolha. Eles participam da Economia dos Bicos simplesmente porque não conseguiram nada melhor. Para esses trabalhadores a Economia dos Bicos significa precarização, insegurança e renda cada vez menor.

No Brasil a informalidade em 2017 chegou à marca de 46% da força de trabalho, de acordo com o IPEA. Muitos desses trabalhadores têm visto sua renda cair, como os trabalhadores sem carteira assinada (- 2,67%) e os que trabalham por conta própria ( -4,03%). Números que contribuem para reforçar a tese de que a Gig Economy centralizou os lucros e descentralizou o trabalho.

“A ideia de que seu eu precisar de algo posso contar com a ajuda dos outros e que isso vai gerar sentimentos e práticas de reciprocidade acabou se convertendo na oferta generalizada de trabalhos mal pagos e sem qualquer segurança previdenciária. Num ambiente em que os sindicatos estão cada vez mais fracos e os direitos trabalhistas sob aberta contestação, os resultados são devastadores.” (Ricardo Abramovay)

Autonomia com interdependência

A gig economy tenta nos conduzir mais uma vez para o caminho do individualismo, seja sobre duas ou quatro rodas. Por outro lado, muitas são as pessoas que tem tentado mostrar que a autonomia traz ainda mais força quando vem acompanhada de interdependência. Coletivos como Enspiral Coliga, que decidiram compartilhar suas redes e recursos em benefício do grupo são bons exemplos disso. Através da tecnologia enfrentam a precarização e o isolamento social, e criam novas — ou recuperam antigas — formas de produzir e trabalhar coletivamente. Apostam na horizontalidade e transparência como respostas à centralização das plataformas digitais.

Enspiral — “Mais pessoas trabalhando com coisas que importam”

Enspiral

Criada na Nova Zelândia, a Enspiral é uma rede formada por profissionais autônomos e organizações, baseada na transparência e horizontalidade. Buscam, através da união entre tecnologia digital e cultura de colaboração, construir coletivamente sistemas e ferramentas de apoio para seus membros. Tudo isso sem grandes somas de dinheiro e sem a a necessidade de buscar investidores, apenas com a força da cooperação e da comunidade.

Um dos produtos mais interessantes gerados pela Enspiral é a Loomio, uma plataforma em código aberto, que serve de instrumento de tomada de decisão para grupos.

Coliga — Redes auto-organizadas geram mais impacto e propósito

Criada na Alemanha, a Coliga é uma plataforma que ajuda redes de profissionais a criarem seus próprios marketplaces e se tornarem mais sustentáveis financeiramente. Através de curadoria e recomendação buscam ampliar o alcance das conexões dos membros das redes que integram a plataforma. (Atualização: infelizmente a Coliga saiu do ar. Mas fica aqui o registro da iniciativa e o link acima para contatos, inclusive para aprender com a experiência que não foi à frente. )

“As pessoas estão um pouco cansadas de entrar em plataformas e terem que analisar centenas de perfis de profissionais. Mas é diferente quando você tem 50 ou no máximo 100 perfis, com recomendações e em que você vê as conexões entre você e esses profissionais.” (Pedro Jardim, CEO da Coliga)

Is the end of the Work as we know it…

Lembra dos senhores feudais? No livro Throwing Rocks at the Google Bus, Douglas Rushkoff analisa as transformações sociais e econômicas promovidas pela chamada “Era Digital”. Ele compara as transformações que estamos vivendo agora com os séculos finais do período medieval, momento em que a aristocracia feudal perdeu parte considerável do seu poder. Duas coisas foram fundamentais para que isso acontecesse: o surgimento dos Bazares e das Corporações de Ofício.

“O bazar era economia peer-to-peer, algo parecido com ebay ou Etsy, onde o cuidado com relações humanas e a reputação geravam melhores negócios. Não havia intermediários, nenhuma plataforma central onde as transações eram conduzidas, a não ser o local e a hora em que o bazar acontecia.” (Douglas Rushkoff)

Já as Corporações de Ofício ou Guildas, eram uma espécie de associação de profissionais que exerciam a mesma atividade, possuíam os mesmos interesses e se juntavam para ficar mais fortes. Eles estabeleciam as regras para um determinado ofício ou definiam, por exemplo, em quais dias da semana eles trabalhariam e qual preço cobrariam. Promoviam o treinamento de aprendizes, o compartilhamento de melhores práticas e buscavam reduzir a competição entre os membros.

Com os bazares e as guildas, vieram também moedas e sistemas de crédito próprios. Depois de alguns séculos a “riqueza estava relativamente dispersa e as pessoas tinham um grande controle sobre seus meios de subsistência.”

Controlar a forma como criamos e distribuímos valor é fundamental para alcançarmos a tão celebrada autonomia que a Era Digital anuncia. Diante da concentração de riqueza e poder promovida pelos gigantes da economia digital é preciso, acima de tudo, retomar o controle sobre nosso próprio trabalho. Não é algo fácil de se alcançar mas coletivos como Enspiral e Coliga já estão abrindo caminho e, se o percurso é longo, é melhor que sigamos juntos.

Referências

Abramovay, Ricardo. Ubercapitalismo: a contrarevolução do Século XXI.

Emergent Research. Dispatches from the new economy: the on-demand workforce.

IPEA. Boletim Mercado de Trabalho nº63.

P2P Foundation. How Freelancers are Reinventing Work Through New Collective Enterprises.

Rushkoff, Douglas. Throwing Rocks at the Google Bus: How Growth Became the Enemy of Prosperity. Penguim.

Slee, Tom. Uberização: a nova onda do trabalho precarizado. Editora Elefante.

Este artigo é parte da parceria entre os sites Em Rede e Co.cada, ambos interessados em refletir sobre a construção de novas formas de organização e de produção na era das redes, tendo em vista o fortalecimento da autonomia e a constituição do comum.

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