Fabiane M. Borges: Tecnoxamanismo como meio de recuperar (e reinventar) pontos de conexão entre tecnologia e ontologias diversas

Fabiane M. Borges

Num estado de guerra permanente e disputa acirrada de visões de futuro, o Tecnoxamanismo surge como uma resistência e uma tentativa de produzir diferença no pensamento contemporâneo, no fazer tecnológico, nas perguntas científicas e nas práticas ordinárias. Assim, Fabiane M. Borges, doutora em Psicologia Clínica, pesquisadora e ensaísta, apresenta essa rede de colaboração internacional que reúne acadêmicos, ativistas, indígenas e muito mais gente interessada em buscar ideias e práticas para além da lógica instrumental do capital. Na entrevista ao Em Rede, ela aprofunda a reflexão sobre o xamanismo como uma tecnologia de produção de conhecimento e aponta algumas das experiências que têm sido criadas nesse contexto.

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Com Bia Martins e Reynaldo Carvalho

- Tecnologia e xamanismo, a princípio, parecem noções contraditórias ou que não se combinam. A primeira remete ao racionalismo instrumental que embasa um projeto desenvolvimentista irrefreável. Já a segunda faz pensar em cosmovisões indígenas, rituais de cura e estados alterados de consciência. Qual o resultado dessa mistura?

Num textinho para a revista Geni (2015) eu escrevi assim, que o tecno + xamanismo tem três sentidos bem evidentes:

1- A tecnologia do xamanismo (o xamanismo visto aqui como uma tecnologia de produção de conhecimento);

2- O xamanismo da tecnologia (a busca das potências xamânicas através do uso de dispositivos tecnológicos);

3- A conjunção entre esses dois campos de saberes obstruídos historicamente pela igreja católica e posteriormente pela ciência, principalmente na virada da idade média para o renascimento).

Cada um desses três sentidos se desdobram em outros tantos, mas aqui vai uma tentativa de falar sobre cada um...

1) Quando percebemos o xamanismo não como uma religião tribal ou crenças de povos arcaicos (o que ainda é muito comum), mas como uma tecnologia de produção de conhecimento, mudamos radicalmente a percepção sobre seu significado. Os estudos por exemplo da ayahuasca demonstram que os estados intensificados de consciência produzem um tipo de experiência que redimensiona o estado corpóreo, ampliando o espectro de sensação, afeto e percepção. Provavelmente essas “ervas de poder” é o que mais nos aproxima do “pensamento mágico” das comunidades nativas, e por consequência da concentração xamânica, ou seja, dessa outra ontologia, como nos alerta Eduardo Viveiros de Castro quando se refere à ontologia ameríndia no Metafísica Canibais ou Davi Kopenawa com sua formação xamânica com yakoana na Queda do Céu. Evidentemente que não é só através das ervas de poder que temos acesso a essa ontologia, mas ela é um portal que nos acerca de forma singular desse modo de enxergar a vida, o mundo, aqui valeria ver as hipóteses de Jeremy Narby no The cosmic Serpent: DNA and Origins of Knowledge, quando fala que o conhecimento indígena das ervas, raízes e medicina nasce em parte dos sonhos e dos efeitos dos enteógenos.

Quando falo que o xamanismo é uma tecnologia de produção de conhecimento, é que ele tem seus próprios métodos de construir narrativas, mitologias, medicina, cura, recolher dados, criar artefatos, criar modos de existência, entre outras coisas. Então isso não é antepassado, nem obsoleto, isso ainda vive, perpassa nossas sociedades tecnologizadas e massificadas e tem sido aos poucos mais valorizado, principalmente depois dos anos 1960, onde os movimentos ecológicos, o contato com as comunidades tradicionais e seus modos de vida, assim como com psicoativos se popularizaram, ora através das lutas desses povos, ora pelo aumento do interesse de parte da sociedade. Abriu-se aí uma questão: se recuperássemos essas ontologias desperdiçadas com essas comunidades sobreviventes e com o que nos resta de narrativas e experiências, não estaríamos abrindo o espectro da própria tecnologia para outras questões e perguntas?

2) O xamanismo da tecnologia. Dizem por aí que teorias como universos paralelos, teoria das cordas, física quântica, entre outras, nos aproximam mais da ontologia xamânica do que da ontologia teológica-capitalista - que guia as atuais produções tecnológicas. Mas apesar dessa tecnologia atual ser voltada para a guerra, para o supercontrole, para a exploração desmedida de recursos humanos, terrestres e extraterrestres, contamos ainda com uma tecnologia especulativa, curiosa e processual, que procura construir hipóteses e sentidos abertos e não tão vendidos à lógica do capital (todo o movimento do software livre, do it yourself, open source significou isso durante o final do século XX e início do XXI).

Essa tecnologia especulativa nos interessa muito, já que ela de certa forma enlaça os conhecimentos desperdiçados. O que nos leva diretamente para o ponto 3) que é a conjunção da tecnologia com o xamanismo. E aqui penso em uma arqueologia ou anarqueologia, já que nessa busca de um ponto de conexão histórica entre ambas, muita coisa pode ser também inventada (hiperstição). Como falei em outros textos, como no Prolegômenos de um Possível Tecnoxamanismo, ou Ancestrofuturismo – Cosmogonia Livre – Rituais Faça Você Mesmo, existiu todo um esforço teológico católico contra esses conhecimentos ancestrais, uma inibição histórica que ficou mais evidente durante a virada da idade média para o renascimento, com suas inquisições, fogueiras, prisões, torturas e pedidos de retratação. A natureza da tecnologia que era imiscuída aos conhecimentos populares e suas necessidades passou por uma purificação, um refinamento monoteísta cristão, e aderiu aos seus preceitos como forma de sobrevivência.

Fabián Ludueña Romandini em seu livro Sociedade dos Espectros nos fala desse enlace entre ciência e catolicismo, que culminou em uma ciência voltada estruturalmente para se tornar Deus, daí sua tendência à onipresença, onipotência e onisciência. O seu vínculo com o capital é fartamente discutido por Silivia Federici no Calibã e a bruxa, que diz que o massacre contra as bruxas, as curandeiras, os feiticeiros, os hereges e todos que não condiziam com os preceitos da igreja, foi feito como forma de limpar o caminho para a introdução da sociedade industrial e o capitalismo. Então duas coisas devem ser levadas em conta aqui, que houve uma violenta dizimação dos conhecimentos ancestrais em toda a Europa e suas extensões coloniais, e que rompeu-se a relação da ciência/tecnologia com as ontologias diversas, em nome de uma metafísica teológica-cristã.

Diante disso o Tecno + xamanismo é uma articulação que tenta pensar esse trauma histórico, esses restos desperdiçados, não aniquilados, recuperar (e reinventar) pontos de conexão entre tecnologia e ontologias diversas, que no nosso caso chamamos de xamanismo, por representar algo anterior à construção dos monoteísmos, e por ser mais ligado aos processos do planeta Terra, pelo menos segundo as leituras que nos interessam. Mas tem vários outras redes e grupos que usam termos similares, que abrem para outras leituras como tecno + magia, ciber + espiritualidade, tecno + animismo, gnoise (gnose + noise), entre outros. Todos falando mais ou menos das mesmas questões.

O resultado dessa mistura é improvável. Ele funciona como uma resistência, um dar-se conta, uma tentativa de produzir diferença no pensamento contemporâneo, no fazer tecnológico, nas perguntas científicas e nas práticas ordinárias. São vetores de tensão que reivindicam uma mudança nos modos de existência e nos modos de relação com a Terra e com o Cosmos, a partir do ponto onde se encontra, associando-se com outras comunidades com anseios similares ou com desejo de expandir seus conhecimentos. Aos poucos isso vai tomando forma, seja com tecnologias do barro, seja do silício. Mas o barato é louco, o processo é lento e o inimigo é gigante. Diante do atual estado de contenção política que estamos vivendo, associações e parcerias com comunidades tradicionais indígenas, quilombolas, ciganas, aborígenes, assentadas (MST e suas místicas), entre outras parece fazer total sentido. É uma retomada política misturada a cosmovisões ancestrofuturistas.

- Você aponta que, conceitualmente, o tecnoxamanismo funciona como rede de colaboração utópica, distópica e entrópica. O que significa isso na prática?

Parto do princípio de que estamos em um estado de guerra permanente, disputa acirrada entre visões de futuro, entre ontologias sociais e políticas e entre natureza e tecnologia. Nesse sentido o tecnoxamanismo se manifesta como mais uma rede contemporânea que tenta compreender, se posicionar e intervir nesse contexto. Se configura como uma rede utópica porque abriga germes imaginários de liberdade, autonomia, igualdade de condições de gênero, raça, classe, povos, equilíbrio entre meio ambiente e sociedade, que caracterizam os movimentos revolucionários feitos até agora. Ela é distópica porque ao mesmo tempo abriga seus germes imaginários niilistas, depressivos, que não vê saída para o capitalismo, que perdeu seus sonhos para o neoliberalismo, que se sente encurralada pelo projeto de supercontrole mundial dos donos do mundo. Enxerga um futuro nebuloso, sem liberdade, natureza destruída, mais competição e pobreza, privação e opressão social. E é entrópica porque habita esse paradoxal jogo de forças, mantém um ruído improvável, sua perpétua ruidocracia, seu estado de desorganização e incerteza é contínuo e está permanentemente em recombinação. Sua improbabilidade é seu dinamismo. É dentro desse regime de utopia, distopia e entropia que promove suas ideias e práticas, que ora são convergentes ora são divergentes.

Na prática isso se manifesta nos projetos individuais e coletivos, sejam virtuais ou presenciais e nas tendências que vão sendo geradas a partir deles. Ninguém é uma rede, está-se nela de tempos em tempos, conforme necessidades, desejo, acesso, etc.

- Os encontros dessa rede acontecem em diferentes países, na América do Sul e na Europa. Poderia dar alguns exemplos de experiências e conhecimentos que tenham sido transladados entre esses territórios?

Alguns exemplos: Gente tech que vem dos países europeus para os festivais de tecnoxamanismo e voltam fazendo permacultura e se juntando com grupos em seus países para criarem rituais coletivos muito próximo aos dos indígenas ou mutirões de construção. Instalação de agrofloresta em território indígena basicamente extrativista feita por estrangeiros ou brasileiros não indígenas junto com indígenas. Implantação de sistema de intranet (rede ligada ponto a ponto) dentro de território indígena (Baobáxia). Confluência de vários tipos de práticas de cura em tendas de cura criadas durante os encontros e festivais que vão das práticas indígenas às orientais, dos rituais afrodescendentes aos rituais eletrônicos, da meditação budista ao banho de ervas das curandeiras brasileiras, isso tudo cria estados generativos espontâneos de trocas de conhecimento, que são transladados para diferentes lugares/países. Conhecimento do barro de indígenas e bioconstrutores não indígenas que convergem em construção coletiva em terrenos de ocupação do MST (esse projeto é para o próximo festival em 2018). Práticas artísticas de mídia, performance, live cinema, projeção, música, etc, que são passadas para grupos que não entendem nada do assunto. Enfim… O tecnoxamanismo é uma plataforma imersiva e vivencial de troca de conhecimentos. Isso tudo vem muito das experiências de outras redes e movimentos mídia tática, submidialogia, metareciclagem, bricolabs, acmstc (arte contemporânea no movimento dos sem teto do centro), integração sem posse, movimento dos sem satélites, tecnomagia, teia dos povos, cultura digital, entre outros. No livro do tecnoxamanismo aparecem várias práticas que podem servir como referência.

- O tecnoxamanismo surgiu a partir das redes ligadas aos movimentos colaborativos como Software Livre e Do It Yourself, com a mesma reivindicação por liberdade e autonomia em relação à ciência e à tecnologia. Em que medida tem proposto novas intervenções ou novas maneiras de produção nesses campos? Poderia dar algum exemplo?

Primeiro é preciso dizer que esses movimentos de software livre e diy sofreram mutação. Já foram imiscuídos dentro do programa neoliberal, seja em relação aos softwares corporativos, seja em relação aos makers, porém eles continuam ativos e ainda são espaços de invenção. Na medida do possível, dentro da nossa precariedade, falta de orçamento próprio ou de apoio de instituições mais fortes economicamente, vamos contando principalmente nos encontros e festivais, com os conhecimentos dos participantes da rede, que entram em ação dentro dos locais. Sei também de casos onde os festivais corroboraram para a formação de grupos, que voltaram para suas cidades e continuaram fazendo trabalhos ligados às questões das tecnologias, seja do campo, seja a dos computadores e também da arte. O tecnoxamanismo serve para inspirar e talvez empoderar projetos que já funcionam, mas que o tecnoxamanismo endossa, excita.

Acho que um exemplo bem representativo foi a agrofloresta o sistema Baobáxia, a Rádio web Aratu que implantamos junto com os Pataxós na Aldeia Pará. É uma troca, ao mesmo tempo, uma resistência que aponta para a questão da colaboração e autonomia, lembrando que todo os processos desse planeta são interdependentes, e que autonomia é uma espécie de pista, de ideal, que só funciona pragmaticamente, na medida em que é possível praticá-la. Então estamos engatinhando nesse caminho. Há redes e processos muito mais avançados que isso.

O que gostaríamos é de ver a Aldeia Pará Pataxó (sede do II Festival Internacional de Tecnoxamanismo), por exemplo, com autonomia alimentar, com as agroflorestas e nascentes exuberantes, com autonomia de mídia, e daqui a pouco com autonomia energética. Não só os Pataxós mas todos os grupos da rede (pelo menos). Mas isso depende muito de tempo, investimento, financiamento, porque essas coisas parecem baratas, mas não são. Lembrando que as corporações, empresários, fazendeiros estão com toda a força na volta dessas Aldeias, incentivando projetos completamente ao contrário disso, ou seja, pressionando para pegar suas terras, incorporá-los nos sistema produtivo corporativo, torná-los empregados baratos, etc.

Agora em maio/2017 nos reunimos com o Assentamento Terra Vista em Arataca (BA) que convidou as lideranças da Aldeia Pataxó para integrarem a Teia dos Povos, que tem esse projeto de autonomia tecnológica e alimentar, e penso que isso, de certa forma, é a continuação das propostas geradas em reuniões comunitárias na aldeia Pará, durante a preparação do II Festival Internacional de Tecnoxamanismo. Tudo depende de uma insistente e frequente mudança nos estratos mais estruturais do desejo. E quando compreendemos que canais como rede globo atingem todo esses territórios, vemos como é necessário que se abram outros canais de informação e formação.

- Na sua opinião os saberes insurgentes e as epistemologias anti-hegemônicas devem ocupar gradativamente mais espaço nas universidades ou é melhor que fiquem à margem?

Numa conversa com Joelson, liderança do MST do Assentamento Terra Vista (Arataca/BA), ele deu a seguinte dica, que para mim foi decisiva: “O tecnoxamanismo não é origem nem fim, é meio”. E como meio, segundo ele sugere, possui um espaço de articulação, que ao invés de responder perguntas de gênese e finalidade, funciona como espaço de interlocução, de produção de conexões, juntando pontos, alavancando movimentos, ampliando conceitos e práticas de si mesmo e de outros, ou seja, joga no meio de campo e facilita processos.

Como mais uma rede do “meio” ela negocia ora dentro das instituições, ora fora delas, ora dentro da academia, ora fora dela. Formada por pessoas das mais diferentes áreas, ela se manifesta na vida ordinária dos seus integrantes. Alguns estão na academia, outros na curadoria, outros na pizzaria. Ou seja, ela está em todos os lugares em que seus participantes estão. Eu particularmente gosto quando fazemos os festivais de forma mais autônoma, onde decidimos o que e como fazer junto aos locais que nos abrigam, e não temos que prestar favores ou contrapartida às instituições. Mas isso não quer dizer que será sempre assim. Na verdade os gastos de quem organiza os encontros são grandes e insustentáveis. Ora será mais independente, ora será mais dependente. O que não pode é estagnar por falta de possibilidade. O crowdfunding tem sido uma saída interessante, mas ele não basta. É preciso parcerias com organizações, universidades, para que a coisa se mova também de forma mais consistente e prolongada, pois contar só com a boa vontade é difícil, os projetos empatam porque não emplacam.

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